| “O opressor sempre impõe a sua linguagem. O regional foge a essa imposição. Todas as minhas letras são políticas […]. Flagram uma realidade local e, necessariamente, não servem a qualquer regime.” Ruy Barata |
Dedicamos este modesto vídeo-documento a Ruy Guilherme Paranatinga Barata, ou simplesmente RUY BARATA, que, além de talentoso poeta, foi político, cartorário, advogado, jornalista, professor e ainda exímio letrista musical.
Ruy Guilherme Barata, o poeta que combateu – e sobreviveu a duas ditaduras – nasceu em Santarém, oeste do Pará, a 25 de junho de 1920 e faleceu e em São Paulo, a 23 de abril de 1990. Filho único de Maria José Paranatinga Barata, a dona Noca, e do advogado Alarico de Barros Barata, recebeu o nome em homenagem a Rui Barbosa. Já Paranatinga vem do lado materno, que significa rio branco. Já aí no DNA de Ruy a sua identificação com as coisas da Amazônia, cujo povo, lendas e culturas o poeta viveu e imortalizou em seus versos engajados.
Alfabetizado pelo pai, Ruy Barata aos dez anos migrou para Belém, a fim de continuar os estudos. Primeiro, no internato do Colégio Moderno; depois no Colégio Nossa Senhora de Nazaré. Fez o pré-jurídico no Colégio Paes de Carvalho, onde teve como professor o intelectual Francisco Paulo do Nascimento Mendes, de quem se tornou amigo para a vida inteira. É aí que Ruy se inicia na poesia escrevendo para a revista Terra Imatura. Em 1938, o santareno ingressa na Faculdade de Direito do Pará.
Os estudos jurídicos acentuaram em Ruy Guilherme Barata a paixão pela poesia, quando imerge nos poemas de Maiakovski, Garcia Lorca, T. S. Eliot, Mallarmé, Pablo Neruda, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, entre outros notáveis literatos.
Todavia, foi a leitura do Manifesto Comunista, de Marx e Engels, que instalou de vez o pensamento progressista na mente combativa e no coração sensível de Ruy Barata, levando-o na vida a opor-se às ideias retrógradas e opressoras que vieram a encarcerar a nação brasileira por duas vezes.
Em 1941, casa-se com Norma Soares Barata, com quem gerou Maria Diva, Rui Antônio, Paulo André, Maria Helena, Maria de Nazaré, Maria Inez e Cristóvão Jaques.
Dois anos depois, Ruy forma-se em direito e, como orador da turma, em plena ditadura do Estado Novo, faz um discurso em que pede a volta do país ao Estado de Direito, defendendo teses avançadas no campo da justiça social. Nesse mesmo ano, Ruy Barata publica Anjo dos Abismos, seu primeiro livro de poemas, com o decisivo apoio do romancista paraense Dalcídio Jurandir.
| “O poeta Ruy Barata trouxe pra nós um legado de poesia, reflexão política, luta por justiça e liberdade. Como presidente da Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa do Pará, homenageá-lo com o ‘ano centenário Ruy Barata’ é motivo de muita alegria. Fiz o meu dever de ofício. Valorizar o legado de Ruy, fortalecer no coração de cada paraense a nossa cultura como forma de vida, desenvolvimento e felicidade!” Marinor Brito, deputada autora do projeto de lei que homenageou o poeta no ano em que ele completaria um centenário. |
Almejando seguir a carreira diplomática, Ruy matriculou-se no Instituto Rio Branco, então localizado no Rio de Janeiro. Entretanto, abdicou do curso ao saber que estava por vir Ruy Antônio, que nasceria a 7 de setembro de 1944, data cívica que prenunciava ser o segundo filho de Ruy Barata um grande brasileiro, o que se concretizou plenamente.
Retornando, pois, a Belém, Ruy foi eleito deputado estadual constituinte, como parte do processo de redemocratização do país, numa significativa carreira política que se prolongou até 1958. Já amadurecido como poeta, em 1951 lançou o livro Linha Imaginária, obra que foi saudada com entusiasmo pela crítica literária nacional.

Como já antecipamos neste documento, o Estado Novo não foi a única ditadura combatida por Ruy Guilherme Barata. O período de redemocratização do Brasil não durou nem vinte anos, pois, em 1964 viria outra, bem mais sangrenta e feroz, mais duradoura e voraz. Foram tempos de tirania que levaram o poeta paraense ao cárcere por duas vezes.
Aliás, na família Barata não só o poeta lutou contra o arbítrio. Ruy Antônio Barata, seu filho, hoje conceituado médico radicado em São Paulo há mais de cinco décadas, foi, por iguais razões, implacavelmente perseguido, chegando a ter dificuldades para exercer a Medicina. Antes, porém, já o pai de Ruy sofrera perseguições políticas, considerando que o juiz de direito Alarico Barata, opondo-se às ideias e ações do major Magalhães Barata, violento interventor federal a soldo da ditadura Vargas, teve que abdicar à magistratura, passando a dedicar-se à advocacia.
Em 1964, como parte do terrível arcabouço do regime ditatorial imposto ao país, Ruy Barata se viu compulsoriamente demitido do cartório em que era titular, ao mesmo tempo que aposentado do magistério superior, passando então, a exemplo de Alarico, a viver da advocacia. Em compensação, desenvolveria intensa atividade cultural no estado do Pará.
| “Paulo André, meu irmão, levava jeito e vantagem em ritmo, habilidade e ouvido privilegiado, [qualidades] que o conduziriam pela vida inteira para o mundo encantado da música.” Ruy Antônio Barata, em seu livro Esse rio é minha rua, pág. 246 |
De combativo ativista político à poesia engajada, e dos poemas para a música foi só um pulo, como se essas ações se interligassem – e de fato são interligadas. Além de um certo modo de ver o mundo e a vida, o artista tem que ir até onde o povo está. Assim, nada melhor realiza tal aforismo que a poesia como parte do fantástico mundo da música. Foi assim que, a partir de 1967, Ruy Barata passou a compor em parceria com seu filho, Paulo André Barata, ainda muito jovem, porém um talentoso e promissor musicista.

Os versos de Ruy casam-se harmoniosamente com as melodias do filho, obras que se tornaram a cara do povo do Pará e, por extensão, do povo amazônico. Juntos, pai e filho passam então a compor dezenas de músicas de cunho rural e urbano, verdadeiros retratos da alma do nosso povo, que vieram a tornar-se êxitos nacionais e internacionais, eternizadas na voz marcante de Fafá de Belém e de outros artistas.
| “As letras de Ruy Barata vão da simplicidade da vida ribeirinha e suas peculiaridades ao rebuscado universo do amor. É muito complicado falar em poucas palavras o que Ruy Barata representa para a cultura nortista. Porque ele foi muitos em uma pessoa só.” Ádria Goes, cantora. |
Pauapixuna, Porto Caribe, Foi Assim e Esse rio é minha rua, entre outras, foram composições trazidas ao mundo por meio da pena de Ruy Guilherme e do violão de Paulo André.
É assim:
A poesia por si mesma explica a seus autores e estes, por meio de seus versos, conceituam o mundo e a vida, num processo metalinguístico perfeito. Foi o caso das obras engajadas de Ruy Guilherme Paranatinga Barata, esse grande brasileiro, o poeta que se transmutou em muitos outros, ao mesmo tempo que sempre foi uma pessoa só. Ruy não veio a este mundo a passeio, vindo a cumprir com plenitude a missão que lhe coube. Intertextualizando com um de seus poemas, o santareno fez o tempo chegar e fez o tempo dar ao cantar as coisas da Amazônia, do homem e da vida.

Ruy Barata: esse é o nome do poeta que, em seu tempo – e no nosso tempo –, montou na cobra-grande e jamais se escanchou em puraqué. Foi assim o homem que fez dos rios amazônicos a sua rua e, assim, fez desses rios também a minha rua… a nossa rua.
L.s.N.S.J.C.!
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