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Corriam as horas e nada de chegar a Guará.

“Lorena!”, avisa o condutor.

Informado, Guaratinguetá era a próxima estação. Ao desembarcar, imediatamente fui à procura de instruções sobre como chegar à Escola. Devia pegar o “Escola”. Já passavam das onze da noite. De camisa de mangas curtas, passei a sentir frio enquanto aguardava o tal “Escola”, que não chegava. Não vinha. Havia naturalmente outros ali a aguardar seu ônibus, entre eles alguns militares; soldados em sua maioria. Logo deduzi que iam também para lá a fim de pernoitar e dia seguinte cumprir expediente. Nada do tal “Escola”, e passei a imaginar que essa linha já teria encerrado a sua atividade diária, o que me deixou angustiado. Então, vi ao longe aproximar-se de nós um coletivo cujo letreiro parecia ser “Vila dos Sangrentos”. Nome estranho! Era uma espécie de dislexia ocasionada provavelmente pelo cansaço e ansiedade, coisa natural a um garoto sozinho em terra estranha àquela hora de uma noite fria. Por frações de segundo, hesitei, mas enfim, antes que o “Vila dos Sargentos” arrancasse, decidi imitar os soldados e embarquei no ônibus cuja pintura externa indicava ser da empresa “Pássaro Marrom”.

E se houvesse na cidade outro quartel da Aeronáutica? Foi um pensamento que me ocorreu repentinamente e que durou pouquíssimo tempo. Já embarcado, o cobrador me informa que de fato a Escola fazia parte do itinerário daquela linha. Ufa! Estava chegando lá. Fiquei de olho nos movimentos dos soldados e nas placas de sinalização. Avistando já o portão da guarda onde os soldados de serviço cumpriam seus quartos-de-hora e o letreiro “Bem-vindo à Escola de Especialistas de Aeronáutica”, a minha preocupação agora era tão somente chegar ao local previsto para apresentar a documentação indicando a finalidade da minha presença na instituição.

Mas a minha busca não se encerraria aí.

Desconhecendo as instalações da Escola, desci junto com os soldados e, barrado no prédio onde eles entraram – a Companhia IG –, o soldado de plantão orienta-me sobre o local exato onde eu deveria me apresentar, um tal de “Corpo de Alunos”. Agradeci e rumei para lá passando em frente ao prédio que logo no dia seguinte identificaria como Rancho dos Alunos.

Estava lá: “Corpo de Alunos”, como dizia o letreiro. Bati à porta. Bati novamente e nada. Ninguém atendia. Já quase no desespero, eis que sou surpreendido por uma fala firme: “Alto lá, identifique-se!”.

Era um procedimento padrão. A sentinela, um aluno de segunda-série, me apontava um fuzil. Sem ter tido tempo de sentir medo ou algo assim, informei-lhe que estava lá para ser matriculado na Escola, ao que o futuro colega me manda apenas dar alguns passos e depois dobrar à esquerda, e ali me atenderiam. Estava batendo na porta que dava acesso à administração do Corpo de Aluno, na lateral do prédio, onde funcionavam as seções e o comando da subunidade.

Atendido pelo aluno-de-dia e seu auxiliar, apresentei a documentação informando-lhe, com palavras confusas, o motivo da minha presença. Creio que eles acionaram o sargento-de-dia, que por sua vez, deve ter falado com o oficial-de-permanência ao CA. Considerando o avançado da hora (já passava da meia-noite), providenciaram para mim cama e cobertor na própria Companhia de Infantaria, onde havia antes tentado entrar.

Era a minha primeira noite de centenas na Escola de Especialistas de Aeronáutica nos dois próximos longos anos. Dormi muito bem, enfim recuperando as energias da extenuada viagem de mais de doze horas em que cruzei o país de norte a sul.

Acordei com a alvorada. Chamou-me a atenção a estatura elevada dos soldados, em comparação à minha triste figura, um franzino de um metro e sessenta e dois, cinquenta e um quilos de peso. Talvez ali se alojasse uma companhia de PA.

Depois do café, ao iniciar o expediente administrativo da unidade, encaminham-me ao sargento Juliano, um primeiro-sargento, que me acompanhou à Seção Mobilizadora para a entrega dos papéis, coleta de impressões digitais e fotografia. Estava enfim matriculado. Logo eu entraria na rotina dos meus futuros colegas, que já aclimatados, treinados e fardados, comportavam-se, a meu ver, como se veteranos fossem.

Tentaria sobreviver a todo custo.

* * *

Alojaram-me na 15ª Esquadrilha, que era a denominação da época para as antigas companhias de aluno, localizada naquele prédio que fica de frente para a Serra da Mantiqueira. De noventa a cem alunos naquele alojamento. Desprevenido, foi o Roque, o xerife da esquadrilha, que me socorreu dando-me um cadeado para o meu armário. Ainda à paisana, reuni-me à turma que, formada no pátio do CA, estava a se deslocar não me lembro agora para onde. Mas, naquela manhã ensolarada de uma quarta-feira, me lembro bem do comitê de boas-vindas do Martins, o Manaus, numa alusão à cidade de origem do colega.

“Acabou de chegar mais um raquítico”.

Esse colega, indivíduo bem pitoresco, era fã do Teorema de Pitágoras, que fazia força por aplicar em toda e qualquer situação. De fato, cheguei com os meus 51 quilos e a observação sarcástica do colega não destoava da realidade. Com o tempo, passei a observar com atenção o Martins, que era falastrão, um tanto vaidoso, muito bom em Matemática e Física, porém sofrível em Língua Portuguesa, matéria em que quase foi desligado. Neste caso, foi salvo pela bondade do sargento J. Carlos, que, mandou refazer a ficha individual do Martins, limpando uma punição leve que o colega havia sofrido. Levada a ficha ao comandante da Escola, numa espécie de conselho de ensino, o brigadeiro salvou a pele do Manaus.

Caído de paraquedas naquele mundo estranho, tão diferente de tudo o que havia experimentado antes, não tive outro jeito senão torná-lo o meu mundo a partir daí. Fui indo por imitação. Um, dois… um, dois… auto, firme, cobrir, esquerda volver, direita volver… Ao longo de dois dias, já uniformizado, passava eu por um deles, como se experiente fosse, apesar das minhas limitações. Logo, toda a rotina da primeira série vinha por mim sendo assimilada, embora apresentasse dificuldades ao desmontar e montar o fuzil HK, nas aulas práticas de material bélico. Nunca me saiu da mente a primeira vez em que fui escalado para o meu primeiro serviço, que era o de aluno-plantão. O Nunes, meu conterrâneo, militar experiente, vendo-me perdido e alheio a detalhes do militarismo, chamando-me à parte, orientou-me: “Valentim, quando o sargento-rondante chegar, faz posição de sentido e te apresenta assim: ‘Aluno 77 1574 Valentim, plantão-da-hora, serviço sem alteração’. Desfaz a continência e permanece em sentido até que ele diga para você ficar à vontade ou descansar. Aí, você fica na posição de descansar”. Muito te agradeço, amigo.

L.s.N.S.J.C.!

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