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INGE e Luthero se conheceram num restaurante às margens do lago Wansee, arredores de Berlim. O jovem médico ainda se encontrava em Paris quando passou a receber insistentes convites de um amigo para passar uma temporada em Berlim. Em abril de 1939, Fernando Nilo de Alvarenga, segundo secretário da embaixada brasileira naquela cidade, reforçou os convites anteriores que vinha fazendo a Luthero. Insistia para que o amigo passasse uns meses em Berlim. Oferecia-lhe casa, comida, trabalho, além de apresentá-lo à sociedade local visando conhecer belas berlinenses. Mulherengo, esse último argumento foi decisivo.

Casamento de Inge e Luthero (imagem aperfeiçoada digitalmente)

É possível que com o convite tentador, Alvarenga, assumido germanófilo, nutrisse segundas intenções – aqui fazemos ilações, considerando as especulações que circulariam mais tarde quanto a Inge e suas possíveis relações com o Reich. Teorias da conspiração são muito comuns nas guerras, contexto em que existem espiões e agentes duplos em toda a parte, pois em todos os lugares paredes têm ouvidos e mato tem olhos. Ao oferecer a Luthero a possibilidade de conhecer moças berlinenses, talvez tivesse o diplomata em mente ligar o filho do presidente do Brasil a alguma família influente de Berlim, o que, de fato, acabou ocorrendo – esse seria um plano. Naquela altura, todos apostavam que a poderosa Alemanha se sairia vencedora do conflito. De acordo com essa premissa, o casamento de uma alemã com o brasileiro seria uma forma de fortalecer o vínculo do Brasil com a Alemanha, reforçando uma tendência verificada na pessoa de Vargas e em alguns de seus chefes militares, como os generais Dutra e Góis Monteiro, notoriamente simpáticos aos alemães. Diante de tais hipóteses, estariam as autoridades alemãs monitorando desde o início Luthero Vargas, e Alvarenga teria sido um instrumento? Ilações.

Pois bem.

Não podendo resistir ao convite, o médico brasileiro sem tardança embarcou para Berlin, e para as berlinenses. Não sabendo falar alemão, contratou um professor. Passaram-se dois meses e Luthero não conseguia aprender nada do idioma de Beethoven, chegando a acreditar que jamais falaria ou entenderia nada dessa complicada língua. Somente depois de três meses, começou enfim a assimilar alguma coisa. Isso se deu quando, não ligando muito para a gramática enrolada do idioma, perdeu o medo de errar. Decidiu que faria igual aos alemães do Brasil, que diziam “a sol” e “o lua”, e assim se faziam entender.

Foi numa festa promovida pelo pintor Hugo Von Habermann. Luthero acompanhava Alvarenga, amigo do anfitrião. O lugar estava lotado e eles pediram permissão a duas bonitas jovens para lhes fazer companhia, partilhando a mesa. Uma delas era Ingeborg ten Haeff. Com a ajuda de Alvarenga, que serviu de intérprete, marcaram outro encontro. Apesar de não dominar a língua, não foi tão difícil para Luthero conquistar a linda, loira e alta alemã. O jeito divertido de ele falar, não dominando a língua, dava-lhe esse trunfo galante. Suas maneiras simples conquistaram Inge, já que o médico brasileiro era o oposto dos homens alemães, em geral disciplinados e previsíveis. Não demorou e estavam de namoro. Querendo o coração de um homem e o de uma mulher, nem mesmo o idioma constitui-se numa barreira, e o brasileiro compensava o paupérrimo vocabulário com gestos, sorrisos, simpatias. Ingeborg diria mais tarde que o brasileiro era um mão-aberta, e não ligava muito para dinheiro, capaz de voltar a pé ao lugar onde estivesse hospedado em Berlin. Ainda que Luthero era um jovem inteligente, formado em medicina, sua grande paixão até então. Ser filho de um presidente de um país da América do Sul em quase nada influenciou na admiração que Inge nutria por ele, pois ela somente bem depois atinaria para a importância disso. Até então, para Inge, a condição de Luthero era algo abstrato, sem grande relevância, distante mesmo. O Brasil era um país longínquo, agrário, periférico, geograficamente afastado do conflito que era protagonizado pela pujante Alemanha de Adolph Hitler. Nem mesmo sabia ela ao certo o idioma que se falava no país da América do Sul, cujo presidente era o pai do jovem pretendente. Tampouco conhecia ela, naquele momento, que o Brasil abrigava uma colônia numerosa de alemães, razão mais que suficiente para suscitar cobiças à cúpula do 3º Reich.

* * *

Ingeborg era filha do rico e influente empresário Hugo ten Haeff, de Wesel. Ela vivia com a mãe, que administrava negócios de confecção e as empresas de iluminação pública herdadas do falecido marido, bastante lucrativas. A moça pertencia à Liga das Jovens Alemãs, a Bund Deutscher Mädel, instituição ligada ao Partido Nazista, mas isso – segundo ela – nada significava, a não ser uma condição imposta pelo regime nazista para as jovens que pretendessem ingressar na universidade, um passaporte, um meio apenas e não ideologia. Inge não se interessava pelo que estava acontecendo, e não passava por sua mente os rumos que aquela insana guerra tomaria – para ela, naquela época o conflito bélico era algo distante e abstrato. Viu Hitler apenas uma vez e o considerou um homenzinho ridículo, com sua voz artificialmente acelerada. Mais tarde, quando já instalada no Rio, a casa da família em Berlin seria destruída e, assim, ainda que ela desconhecesse naquele momento os rumos que a Guerra tomaria, o destino incumbiu-se de lhe oferecer em tempo a fuga do epicentro do caos. Casar-se-ia com um estrangeiro e, nesse caso, embora inicialmente não houvesse pensado no caso, a condição de o noivo ser filho de um presidente viria a ajudá-la de alguma forma.

Sem rodeios, ela aceitou de imediato.

Estas e outras histórias da época da Segunda Guerra, em breve no meu livro “Yes, sou brasileiro”!

L.s.N.S.J.C.!

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