NAQUELA tarde quente de fevereiro, cheguei apressado para o segundo expediente. Era urgente pagar um imposto à natureza. O comandante do grupo estava em viagem; a sala estava vazia. Subi a escada a passos rápidos, abri a porta da chefia e fui direto ao reservado. Urgia passar a mensagem ao Alemão – como eu costumava dizer aludindo a um ex-presidente de origem germânica. Alguns segundos depois e seria tarde demais. Esse imposto, que a natureza não dispensa e que, de uma forma ou de outra, cada sujeito ou sujeita tem que pagar não importando onde esteja – não admite atraso. Uma vez no trono, isolei-me enfim nesse momento único, necessário, aliviante e – por que não dizer? – prazeroso de plena solidão. Aaahh! É exatamente aí onde a natureza se faz implacável a todos nós indistintamente, igualando o rico ao pobre, o homem à mulher, o jovem ao velho; magro e gordo, preto, branco e amarelo, santo e pecador, ilustre e ordinário, comandante ou soldado, do papa ao coroinha, todos – universalmente todos – apresentam-se iguais neste mundo porque ninguém, não importando classe social, sexo, idade, etnia, crença religiosa, conhecimento, patente, é capaz de sonegar tão sagrado imposto. Acendi um cigarro (naquele tempo eu fumava) e quedei-me a meditar aproveitando aquele momento só meu, indelegável, isolado, discreto, do qual não se faz – nem se deseja – publicidade alguma. É nessa hora que toda a gente se dedica a refletir, meditar, pensar nos problemas domésticos e de trabalho, nos cheques voadores, na rodada de futebol, nos assuntos do momento. É quando se se concentra enfim nalguma questão ou até mesmo busca esquecer outras. Ou apenas simplesmente lê um jornal ou folheia uma revista, ocupando aqueles instantes solenes. Thibung! Vai embora, coisa ruim.
Dava par ouvir o telefone a tocar ao longe. Trimmm… trimmm… trimmm…
Não era na chefia, mas na secretaria do GSM. Eu já estava nos finalmentes, mas deixei que tocasse. Fosse urgente, depois tornariam a ligar.

Minutos depois, o ruidoso aparelho tocou de novo. Trinnn…
Era da SIJ. Não estava sozinho. Lá chegando, reuni-me a vários colegas, que também receberam a mesma mensagem – creio que em torno de vinte a 25 sargentos. Éramos todos nós os inadimplentes com o sistema imobiliário. Eu mesmo não consegui pagar uma mensalidade sequer. Acredito que todos eles lá reunidos também não, quando muito uma mensalidade ou duas. Estranhamos a ausência de um, que sabíamos também estava em débito com o BNH. O que teria ocorrido? Sendo reconhecido como um malandro, provavelmente ele tenha molhado a mão de alguém do para que o funcionário “esquecesse” o seu nome na carta que chegou ao comandante. Um nome a mais ou a menos, quem daria por falta? O azar foi nosso que não tivemos a mesma ideia, nem dinheiro para molhar a mão do servidor.
A cada um que chegava na seção, o encarregado – o 2S De Souza, o mesmo representante da CAPEMI, que nos ofereceu filiação à instituição quando da nossa apresentação naquele 6 de agosto de 1979 – escancarava os dentes num sorriso de quem se divertia com a nossa desgraça. “Podem ficar à vontade”, dizia-nos sarcasticamente o sujeito numa espécie de prazer mórbido, repetindo o bordão dum personagem cômico de Chico Anísio, êxito popular na tevê daquela época. Passaram-se anos e décadas e eu jamais esqueci a atitude canalha daquele sargento que sentia prazer em ver prejudicados seus colegas de farda, que, por razões várias, acabaram naquela situação vexatória. Mais tarde eu percebi que a totalidade daqueles colegas, assim como eu, não recebiam nenhum rendimento extra, a não ser o salário (naquele tempo não havia gratificação natalina nem adicional de férias). Vários deles eram do DPV e outros da própria Base Aérea; não viajavam a serviço ou em comissão e assim não tinham como reforçar o soldo com diárias ou ajudas de custo, benefícios que em geral os militares ligados à aviação beliscavam ao menos uma vez ao ano. Vi que toda a crise não atingiu unicamente a mim.
Chegou enfim o comandante. Como era de se esperar, o coronel Carvalho Neto entabulou um discurso moralista, dando-nos um longo carão e, ao final, sentenciou: vinte dias de detenção. Repetiu a mesma ameaça que fez naquela outra oportunidade, meses antes, no auditório: em caso de reincidência – não fazendo acordo para atualizar as mensalidades junto à Caixa – mais vinte dias, culminando em licenciamento sumário para aqueles não estabilizados (era o meu caso) e em conselho de disciplina, para os demais. Saímos da sala cabisbaixos e conscientes de que, sendo culpados, era justa a punição disciplinar. Antes, porém, na saída, Aires, que era um terceiro-sargento antigo, com seus quinze anos de serviço, encarou o nosso algoz que estava mais próximo, o tal sargento encarregado da SIJ. “Você ganha adicional de risco de vida? Se não ganha, era bom ganhar.”, uma espécie de ameaça velada e, a julgar pela cara de satisfação de De Souza, justificada, tal a nossa revolta.
Ora! Naquele tempo, qualquer um de nós, sargentos, que não fosse daqueles ligados diretamente à aviação – setor onde sempre pintava uma viagenzinha a serviço, com indenizações de diárias pagas pelo contribuinte – ou não tendo outra fonte de renda, vivia em eterno perrengue financeiro, fazendo das tripas coração para que cartas de credores não chegassem à mesa do comandante. Nosso algoz não tinha problemas pois sempre abiscoitava uma comissãozinha aqui ou acolá com os financiamentos da CAPEMI, do qual era representante. Ali estava, naquele grupo de sargentos endividados, a prova de que a crise financeira se encontrava instalada no país, e os quarteis não eram exceção. Eu, portanto, não era um caso isolado. Para o comandante, porém, nós éramos maus elementos, militares indignos, para os quais a solução era o regulamento disciplinar.
Vida que se seguiu, com mais baixos que altos. Tudo, porém, ficou no passado.
L.s.N.S.J.C.!
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