[…]
ERA O bilheteiro, que através da vidraça do guichê me observava preocupado. “Esse arataca vai me perder a droga do ônibus…”. Foi mais uma das muitas encruzilhadas de minha vida. Fico a pensar sobre esse indecifrável mistério da vida: as nossas encruzilhadas, o nosso destino, o acaso, as nossas decisões… Qualquer uma delas nos remeteria a outro mundo, outras pessoas na nossa vida, outra profissão, outro cônjuge e outros filhos. Seríamos mais felizes? Eis o grande enigma que homem algum jamais decifrou. Percebendo que peguei no sono, o funcionário se deu o trabalho de sair do seu posto de trabalho para me alertar sobre o horário. Não me esqueço jamais desse herói anônimo, um bom samaritano, que, vendo um irmão em dificuldade, não hesitou em lhe prestar socorro. Já havia feito a sua obrigação, que era a de me vender o bilhete. Muito obrigado, meu bom homem. Jamais me esqueci de ti, meu irmão. Deus te abençoe sempre, onde quer que estejas, meu amigo.
À semelhança de um louco e sob os olhares espantados de todos que estavam próximos, corri até a plataforma. Esbaforido, embarquei no Viação Sampaio que me conduziria até Guaratinguetá. Encontrava-me prestes a entrar num processo de molde para, ao cabo de dois longos anos, adquirir os requisitos exigidos para tornar-me uma minúscula peça de uma máquina gigantesca e poderosa que convencionamos chamar de Estado, que nessa época reunia todas as forças para combater ideias contrárias, por inofensivas que parecessem.
Enquanto o Viação Sampaio rodava pela Dutra rumo ao Vale do Paraíba, distraía-me observando a paisagem de campos e cidades. Apesar do cansaço pela longa e agitada jornada, não tinha sono. Ainda mais em razão do susto do Rio de Janeiro, quando, vencido pela exaustão, cochilei e logo estava totalmente entregue, prestes a perder o transporte, pondo todo o esforço a perder.

Embora desagradável, o medo é um sentimento necessário à sobrevivência do animal. E eu, inseguro, era um animal que precisava sobreviver a qualquer custo na selva em que então fora lançado. Não fosse o gesto de bondade daquele bom homem, eu teria perdido o ônibus, contratempo que me faria jogar no mato aquela oportunidade que, já nem esperando, se avizinhava ao alcance de minhas mãos. Sim. Sem dinheiro para mais uma passagem, nem imagino o que seria de mim naquele mato sem cachorro. Diante dum infortúnio de tal magnitude, que seria daquele jovem de outro Estado, sem parente nem derente, nenhum conhecido numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pouco dinheiro no bolso, e ainda tímido? Imaginei depois que, pedindo apoio aqui e acolá e informando da minha condição de candidato a um concurso da Aeronáutica, a menção do nome dessa instituição acabaria por me conduzir ao quartel da FAB mais próximo, talvez o 3º COMAR – especulo. Ficaria por lá – imaginando eu – vagando, filando a boia e dormindo onde pudesse, por conta da caridade do comandante ou de algum oficial-superior por dias ou semanas, até que me mandassem de volta ao Pará no próximo avião. Provavelmente me fariam trabalhar em troca de comida e pouso, como – anos depois fui saber – acontecera com o piauiense Edmilson.
Foi assim:
Edmilson, garoto pobre, era um candidato do Piauí que, chegando a Belém para um concurso à Escola de Especialistas, apesar de muito dedicar-se, não conseguiu na ocasião ser aprovado. Sem dinheiro para voltar à terra natal, foi levado à presença do comandante da Base Aérea, a quem pediu autorização para permanecer hospedado na Base Aérea até a data do próximo certame, quando, aprovado ou não, deixaria a unidade. Magnânimo, o coronel autoriza a permanência com a condição (justa, por sinal) de o jovem ajudar nos trabalhos de rancho ou de outra subunidade – ele até podia escolher. No rancho, o negrinho ficou lá trabalhando, a ajudar nos afazeres diários do rancho das praças, civis e sargentos, enquanto nas horas vagas disciplinadamente queimava as pestanas nos livros e apostilas. Dormia precariamente no alojamento reservado aos taifeiros.
Pobre rapaz!
Diariamente era humilhado pelos taifeiros, que, aproveitando-se do reforço inesperado e da necessidade dele, destinavam às suas mãos as tarefas mais duras e insalubres. Não bastasse, os vocativos mais frequentes que dirigiam ao rapaz: imbecil, burro, abestado, jumento, filho de puta, e daí em diante sem ter nem pra quê. Extravasando seus recalques, destinavam ao infeliz também petelecos e cascudos.
Mas – como já disse – o teatro da vida, caprichoso, impõe seu próprio roteiro.
Decidido a dar fim nesse rosário de humilhações a que é todos os dias submetido, apega-se com mais afinco aos estudos. Além da Escola de Especialistas, também se candidata à Escola de Aeronáutica (somente mais tarde seria criada a atual Academia da Força Aérea). No entanto, é novamente reprovado no concurso da Escola, mas… por ironia, logra êxito no da Escola de Aeronáutica. Em quatro anos Edmilson voltaria oficial.
Numa fase da história brasileira em que um oficial das Forças Armadas tinha a prerrogativa de mandar recolher ao xadrez, os taifeiros do rancho começaram a preocupar-se com a sorte do piauiense, e também, principalmente, com a deles – não boa. Se não fosse reprovado que Edmilson saísse aviador, era ardente desejo deles; jamais saísse oficial-intendente, mas, se por acaso formasse no Quadro de Intendentes, que não regressasse a Belém; viesse de volta a Belém, que fosse classificado no QG da 1ª Zona e não na Base Aérea, onde provavelmente seria chefe de rancho, cargo em que seus ex-algozes lhe deveriam obediência hierárquica incondicional.
Oh sociedade hipócrita e vil, que exalta o poderoso e pisa o mais fraco!
A vida é pródiga em mostrar que as pessoas tratam as outras em função do status social que possuem, e este, embora raro, por vezes se modifica, possibilitando ao inferior chegar a faixas mais elevadas na pirâmide social. A nova condição de Edmilson, futuro oficial da Força Aérea, mudaria da água para o vinho o tratamento nada cavalheiresco que até então lhe era dispensado por aqueles ignorantes; os taifeiros, diante da nova situação, agora já não mais pegam pesado com o rapaz e até lhe permitem comer junto com eles da comida que sobra dos oficiais, em vez da que sobrava do rancho dos soldados, como dantes.
Matriculado, Edmilson, movido pela mágoa do período em que fora cotidianamente humilhado, não pensava jamais, porém, noutra proa a não ser a da Base Aérea de Belém. Ademais, sendo do Piauí, Belém era rota natural. Findo o curso, foi exatamente essa unidade que lhe coube. Volta então à Base Aérea de Belém, onde é designado chefe de rancho. Houve muito taifeiro a sentir na pele as voltas que dão os ponteiros do relógio da vida.
Voltando ao meu caso.[…]
L.s.N.S.J.C.!
Deixe um comentário