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PRÓXIMO da meia-noite, na passagem de 6 para 7 de abril de 1952, entre o domingo e a segunda-feira, uma garoa fina havia se derramado no bairro da Lagoa deixando mais fresco e bucólico o lugar. Tranquilo transcorria o plantão do guarda-noturno nº 2.531, como era identificado funcionalmente o vigilante municipal Abdias dos Anjos. Conforme o livro de ocorrências da delegacia do 2º Distrito Policial (2º DP) de Copacabana, peça inicial do processo, o guarda-civil circulava nas proximidades do Jardim de Alá, entre as ruas Nascimento Silva e Barão de Jaguaribe, quando a serenidade de sua ronda noturna foi interrompida por barulhos que lhe pareciam ser de disparos de arma de fogo. De repente, três estampidos rompiam o silêncio dos derradeiros minutos do domingo ou dos primeiros de 7 de abril de 1952, cessando temporariamente beijos, abraços, amassos e apalpadelas dos casais de namorados que sob às árvores se ocultavam de curiosos ou conhecidos. Com o susto, alguns amantes evadiram-se por medo de assalto, de servirem de testemunhas ou mesmo de acabarem vítimas de silenciamento por parte dos agressores. “Isso dá uma encrenca danada!”, disse um deles.

Uns poucos casais, porém, protegidos pela fraca luminosidade e pelos galhos e sombras das árvores, mantinham-se à espreita do incomum acontecimento. Era a curiosidade, um sentimento que, por vezes, é mais forte que o medo. No cumprimento do dever, Dos Anjos imediatamente apressou-se em direção às proximidades do elegante Clube dos Caiçaras, local de onde veio a zoada dos disparos. Em caminho, encontrou um casal de namorados (um homem moreno e uma mulher parda, segundo os jornais), que, assustados e esbaforidos, corriam na direção de Ipanema.

­“O que aconteceu?”. O sujeito moreno respondeu ao vigilante que “um homem deu três tiros em alguém”. Acreditava que uma mulher fora a vítima. “Em seguida, o sujeito correu em direção à lagoa, e lá chegando atirou nas águas um objeto brilhante”, prosseguia a testemunha ocular. Depois, não sabendo muito o que fazer e percebendo que fora observado, retornou ao automóvel, um Citroën preto e sujo de barro vermelho. Puxou a vítima para o banco do lado direito e, assumindo a direção do veículo, rumou em alta velocidade tomando a proa do Leblon. Os dois homens haviam travado violenta discussão, e, além do bate-boca e dos disparos, ouviu-se um grito agudíssimo de mulher, segundo o homem.

Mais tarde, os jornais e rádios do Rio de Janeiro repercutiriam o caso que Abdias transmitira ao comissário de plantão do 2º DP. Eis a versão de A Manhã: “O casal acima referido teria ouvido posteriormente aos tiros um grito de mulher, grito histérico, agudíssimo. Julgaram os namorados que a pessoa alvejada teria sido uma senhora e daí, comunicarem ao guarda municipal, que tem o número 2.531, que uma mulher havia sido alvejada no interior do Citroën preto.”

E a versão do Diário Carioca: […]

“De dentro do veículo, saiu um homem que, em pé na calçada, lado direito, desfechou três tiros para dentro do carro. Ele [o declarante] e sua companheira ouviram então, nesta ocasião, uma voz que lhes pareceu de mulher. O assassino afastara-se do carro, como se o fosse abandonar, para em seguida mudar de ideia e voltar, dar a volta pela frente do veículo, entrar, ligar o motor e partir como que vai para o Leblon.”.

“O assassino afastara-se do carro, como se o fosse abandonar, para em seguida mudar de ideia e voltar, dar a volta pela frente do veículo, entrar, ligar o motor e partir como que vai para o Leblon.”

Em comum que, a julgar-se pelos gritos agudos, havia uma mulher na cena do crime. O vespertino A Noite fez coro: “As autoridades estão também propensas a acreditar que existia mesmo uma mulher no carro, pois uma daquelas testemunhas, quando falou ao guarda, declarou que no momento em foram dados os tiros ouvira um grito fraco, parecendo de mulher”.

Essas foram as informações que serviram de ponto de partida para as marchas investigativas e processuais de um dos mais memoráveis casos de homicídio, que a população logo passou a acompanhar com invulgar interesse. Nunca antes se havia vendido tanto jornal no Rio. Era como uma novela da vida real para a gente carioca. […]

Esta história é por mim narrada em “O Misterioso Crime do Sacopã”, Editora Vizeu.

L.s.N.S.J.C.!

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