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ALÉM DE TUDO, o medo do desconhecido que se aproximava.
E essa tal escola, como seria? Quais desafios exatamente me seriam propostos? Conseguiria me adaptar? Eu, que me considerava um jovem cujo comportamento oscilava entre a displicência e a hiperatividade, esta última tentando compensar a característica timidez.
Até então questões como essas nem por um instante me haviam passado pela caixola. Agora, uma vez naquele avião, após uma sequência quase involuntária de acontecimentos que me haviam conduzido ao embarque para um lugar distante e estranho, eis que tomo ciência de que seria, a partir daí, com tudo por minha conta e rezar era o máximo que meus pais podiam fazer agora por mim, torcendo para que tudo corresse bem. Era a ficha caindo – como diríamos mais tarde. A verdade é que nem eles nem eu tínhamos noção do seria exatamente essa tal Escola e o curso que eu estava prestes a iniciar. As informações que me chegavam e àqueles jovens que comigo prestaram o concurso eram sempre bastante vagas, imprecisas, incompletas… “Estude por conta do governo federal”… “Força Aérea Brasileira”… “Escola de Especialistas”.
Especialista de quê, exatamente? O panfleto dizia: “Fardamento igual a sargento, exceto nas divisas”.
Então usaria farda. Era isso? A única farda que a mente de estudante me indicava no momento era a do Colégio Augusto Meira, ali em São Braz. Alguém falou em sargento. Sargento: era isso que eu ia sair ao final do curso. Dessa patente eu só lembrava do sargento Garcia, do seriado Zorro da tevê. Por isso, para mim a figura de um sargento me remetia imediatamente a um sujeito maduro, forte, gordo, sisudo e rígido (embora divertido), além de um bigode imenso.

E eu, magrelo e baixinho, mal tinha dezesseis anos; dois anos depois, dezoito – e ainda magrelo e baixinho -, não me imaginava em tal condição. Também lembro que me falaram em dureza, que o regime militar era exigente. Quem falara? Ah sim, meu padrinho Alberto. Passei a me concentrar em meu Alberto, padrinho de crisma, um sujeito com feições indígenas, solteirão lá com os seus quarenta a cinquenta anos. A idade dele, na verdade, não dava bem pra definir por causa de sua feição amazônica, ele que era natural de São Gabriel da Cachoeira, Alto Rio Negro, estado do Amazonas. Alberto era formado em Contabilidade, muita moral para um indígena. Deixou cedo seu povo e foi estudar em colégio de freiras. Lembrei aí que ele falava num amigo que era tenente em Pirassununga. Pirassununga? Guaratinguetá? Nunca ouvira falar dessas cidades. O padrinho era um cara bem relacionado, condição bem útil naquele tempo, época em que morria pagão quem não tivesse padrinho.

E agora?
Não dava mais pra voltar e desistir de tudo. Uma vez que estava naquele avião, o remédio era prosseguir. Fosse o que Deus quisesse.
Tamanha era expectativa que me dominava que nem mesmo dormir eu conseguia. Logo eu, um sujeito bom de sono. Desejei ter em mãos um bom livro ou mesmo uma revista pra ler. Além de tudo, depois do avião ainda teria que pegar um ônibus rumo a Guaratinguetá. Quanto custaria a passagem e que horas partiria? E se eu me perdesse no Rio? Com tais insistentes pensamentos me povoando a mente, de repente notei que o avião perdia altitude… olhando pela janela, via paisagens mais bem definidas, visualmente próximas. Pelo jeito, o avião se aproximava de alguma pista de pouso.
Diante dessas divagações meio confusas, com os olhos de hoje vejo que o indivíduo nada mais é que um prisioneiro. Um prisioneiro da sociedade que te impõe determinados comportamentos e regras; um prisioneiro das necessidades básicas – o pão – que precisam ser satisfeitas diariamente; depois preso a outros objetivos, prisioneiro de um agente poderoso – o Estado, ente fortíssimo que te impõe regras; da família, que te cobra atitudes e pensamentos coerentes com o que essa mesma sociedade preconiza. Esse aprisionamento, que te transforma (para o bem e para o mal), vai trabalhando devagarinho tua vida e tua personalidade sem que tu ao menos percebas. Existe alguém totalmente livre neste mundo?…
Deixemos de filosofias e voltemos à vida. Pousamos em Carolina, Maranhão. Parada técnica para reabastecimento. Vi que os pilotos seguiram para um local, que somente muito mais tarde saberia o nome: sala AIS. Nós, os passageiros, também descemos pra espichar as pernas, uso de toalete e comer alguma coisa, enquanto o sargento-mecânico acompanhava o reabastecimento da aeronave. Não comi nada. Não que estivesse sem fome, mas sim pra economizar os poucos cruzeiros que meu pai havia me dado para as despesas imediatas. Deixaria para enganar o estômago em Brasília, a próxima escala.
Partimos rumo à Capital Federal. Chegando lá, num dado momento, tomando coragem e procurando vencer a perversa timidez juvenil, aproximei-me do sargento-mecânico. Era um senhor de aparência simpática, talvez com seus 35 anos, da patente de segundo-sargento. Ele foi bastante gentil comigo quando lhe perguntei sobre ônibus para chegar do aeroporto Santos Dumont até a rodoviária. Expliquei-lhe que meu destino final não era o Rio e sim Guaratinguetá, São Paulo. Cumprimentando-me pela convocação, deu-me informações certinhas: “Pegue o primeiro ônibus com o letreiro ‘Rodoviária Novo Rio’, não tem o que errar”. Agradeci. Logo depois, procurei comer alguma coisa, mas com o cuidado de pedir o sanduíche mais barato. A fim de economizar o do refrigerante, comi o misto-quente a seco.
O trecho Brasília-Rio, bem mais curto, não me trouxe outros pensamentos inquietantes. Logo estávamos em procedimentos finais para o pouso na cidade que até dezessete anos e alguns meses atrás sediara o poder federal. Da janela, procurava observar o máximo a paisagem da cidade, que já conhecia pela tevê. Peguei a mala e, seguindo as orientações do sargento, procurei o ponto de ônibus mais próximo a fim de aguardar o primeiro coletivo que tivesse a placa “Rodoviária Novo Rio”. Eram quatro e meia da tarde, mais ou menos. Assim que paguei a passagem, pedi ao cobrador que me indicasse onde ficava a rodoviária, e ele, solícito, fez um meneio de cabeça. Então, ia observando a paisagem e apontando mentalmente os pontos diferentes e os iguais em comparação à minha Belém. Cheguei à conclusão de que havia mais pontos coincidentes do que estranhos. Lembrei logo dos livros de História que falam da colonização portuguesa no Brasil e a arquitetura do Rio bem confirmava o que diziam. Prestei também atenção em duas jovens – bem bonitas, por sinal –, que estavam à minha frente. Iam elas descontraidamente conversando, enquanto eu observava o sotaque, não vendo nada de diferente em relação à maneira como nós falávamos naquela época, salvo uma ou outra gíria. Se uma delas me desse bola, eu ficaria muito lisonjeiro. O cobrador me dá o sinal avisando que eu descesse na parada seguinte: “Aí, xará! A rodoviária é na próxima parada!”. Agradeci.
Na rodoviária Novo Rio, atento ao horário já avançado, quase noite, fui correndo com os olhos os guichês. Achei! Viação Sampaio. Comprei passagem para o próximo ônibus que saía às seis da tarde. Já passava das cinco. Com o bilhete no bolso, procurei um banco vago e me sentei, segurando com firmeza a mala pelo medo de ser roubado. Ao cabo de poucos minutos a cabeça me torna a rememorar todos os lances do longo dia, desde quando acordei antes das cinco, o ônibus para o aeroporto, a chamada para o avião, o embarque, as horas que permaneci na aeronave… Esse breve descanso me dizia que estava exausto, cansado, muito cansado… Breve chegaria finalmente ao destino… Exausto, cansado, muito cansado… De repente, acordei com alguém tocando meu ombro esquerdo: “Rapaz, teu ônibus sai em cinco minutos.” […]
L.s.N.S.J.C.!
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