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HISTÓRIAS circularam de que Luthero, cansado da relação com a alemã, teria se apaixonado por uma cidadã norte-americana, moça que teria conhecido quando esteve nos EUA em 1942. Segundo essas mesmas versões, Luthero a teria levado consigo para a Itália. Ele teria usado de sua interferência para que ela fosse inscrita como enfermeira, condição facilitadora para que a estadunidense seguisse, sem problemas, em companhia dele para a Europa.

Outra versão dava conta de que Inge seria, na verdade, espiã – hipótese a meu ver menos provável, porém amplamente divulgada e aceita. Em consequência de sua atividade como agente do 3º Reich, sua presença no país teria ficado insustentável, ensejando o fim da convivência marital. De uma forma ou de outra, infeliz, o tenente Vargas passou a afogar as mágoas no álcool, e o caso com a pretensa enfermeira teria sido apenas uma tentativa de esquecer Inge, que foi – na verdade – o grande amor de sua vida. Circularam também outros boatos. Inge teria sido surpreendida na cama com uma amiga. Essa versão viria a ser sordidamente explorada pelos inimigos da família Vargas, principalmente o verborrágico Carlos Lacerda: “Corno de mulher!”.

Coisas da vida.

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Tudo passaria em brancas nuvens e a História não daria importância ao fato, não fosse Luthero filho do presidente Getúlio Vargas, Inge não fosse alemã, a Alemanha não estivesse em guerra, e o Brasil não estivesse lutando do lado oposto ao país de Hitler.

Conheceram-se, porém, bem antes de os norte-americanos invadirem o Norte e o Nordeste do Brasil e este país efetivamente destacar militares para a guerra a fim de lutarem contra a pátria de Ingeborg. Dois anos depois, os japoneses atacariam Pearl Harbour (dezembro de 1941), motivando os ianques a entrarem em definitivo no conflito – o caldo engrossou. Em 1939, o governo brasileiro nem sonhava em lutar contra ou favor dos alemães. Porém, no ano seguinte, Luthero intuía que, cedo ou tarde, o Brasil teria que se decidir. Quando já havia retornado a este país tropical, o filho sondou o pai e Getúlio lhe respondeu:

“A guerra na Europa é entre potências desse continente, nós estamos na América. Não temos razão de pendermos para um lado ou para o outro. Não pretendo levar o país a uma guerra. […] Já reparaste numa briga de cachorros? Ao disputarem os restos que lhe atiram numa carneada, enquanto os grandes lutam, os pequenos aproveitam.”

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Inge e Luthero se conheceram num restaurante às margens do lago Wansee, arredores de Berlim. O jovem médico ainda se encontrava em Paris quando passou a receber insistentes convites de um amigo para passar uma temporada em Berlim. Em abril de 1939, Fernando Nilo de Alvarenga, segundo secretário da embaixada brasileira naquela cidade, reforçou os convites anteriores que vinha fazendo a Luthero. Insistia para que o amigo passasse uns meses em Berlim. Oferecia-lhe casa, comida, trabalho, além de apresentá-lo à sociedade local visando conhecer belas berlinenses. Mulherengo, esse fortíssimo argumento foi decisivo.

É possível que com o convite tentador, Alvarenga, assumido germanófilo, nutrisse segundas intenções – aqui fazemos ilações, considerando as especulações que circulariam mais tarde quanto a Inge e suas possíveis relações com o Reich. Teorias da conspiração são muito comuns nas guerras, contexto em que existem espiões e agentes duplos em toda a parte, pois em todos os lugares paredes têm ouvidos e mato tem olhos. Ao oferecer a Luthero a possibilidade de conhecer moças berlinenses, talvez tivesse o diplomata em mente ligar o filho do presidente do Brasil a alguma família influente de Berlim, o que, de fato, acabou ocorrendo – esse seria um plano. Naquela altura, todos apostavam que a poderosa Alemanha se sairia vencedora do conflito. De acordo com essa premissa, o casamento de uma alemã com o brasileiro seria uma forma de fortalecer o vínculo do Brasil com a Alemanha, reforçando uma tendência verificada na pessoa de Vargas e em alguns de seus chefes militares, como os generais Dutra e Góis Monteiro, notoriamente simpáticos aos alemães. Diante de tais hipóteses, estariam desde o início as autoridades alemãs monitorando Luthero Vargas, e Alvarenga teria sido um instrumento? Ilações.

Pois bem.

Não podendo resistir ao convite, o médico brasileiro sem tardança embarcou para Berlin, e para as berlinenses. Não sabendo falar alemão, contratou um professor. Passaram-se dois meses e Luthero não conseguia aprender nada do idioma de Beethoven, chegando a acreditar que jamais falaria ou entenderia nada dessa complicada língua. Somente depois de três meses, começou enfim a assimilar alguma coisa. Isso se deu quando, não ligando muito para a gramática enrolada do idioma, perdeu o medo de errar. Decidiu que faria igual aos alemães do Brasil, que diziam “a sol” e “o lua”, e assim se faziam entender.

Era uma festa promovida pelo pintor Hugo Von Habermann. Luthero acompanhava Alvarenga, amigo do anfitrião. O lugar estava lotado e eles pediram permissão a duas bonitas jovens para lhes fazer companhia, partilhando a mesa. Uma delas era Ingeborg ten Haeff. Com a ajuda de Alvarenga, que serviu de intérprete, marcaram outro encontro. Apesar de não dominar a língua, não foi tão difícil para Luthero conquistar a linda, loira e alta alemã. O jeito divertido de ele falar, não dominando a língua, dava-lhe esse trunfo galante. Suas maneiras simples conquistaram Inge, já que o médico brasileiro era o oposto dos homens alemães, em geral disciplinados e previsíveis. Não demorou e estavam de namoro.

Luthero Vargas, aqui exercendo a medicina durante a Segunda Guerra

Querendo o coração de um homem e o de uma mulher, nem mesmo o idioma constitui-se numa barreira, e o brasileiro compensava o paupérrimo vocabulário com gestos, sorrisos, simpatias. Ingeborg diria mais tarde que o brasileiro era um mão-aberta, e não ligava muito para dinheiro, capaz de voltar a pé ao lugar onde estivesse hospedado em Berlin. Ainda que Luthero era um jovem inteligente, formado em medicina, sua grande paixão até então. Ser filho de um presidente de um país da América do Sul em quase nada influenciou na admiração que Inge nutria por ele, pois ela somente bem depois atinaria para a importância disso. Até então, para Inge, a condição de Luthero era algo abstrato, sem grande relevância, distante mesmo. O Brasil era um país longínquo, agrário, periférico, geograficamente afastado do conflito que era protagonizado pela pujante Alemanha de Adolph Hitler. Nem mesmo sabia ela ao certo o idioma que se falava no país da América do Sul, cujo presidente era o pai do jovem pretendente. Tampouco conhecia ela, naquele momento, que o Brasil abrigava uma colônia numerosa de alemães, razão mais que suficiente para suscitar cobiças à cúpula do 3º Reich.

Aqui, no casamento com a bela alemã Inge

Esta e outras histórias estarão em meu livro “Yes, nós somos brasileiros”, ainda em rascunho.

L.s.N.S.J.C.!

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