E O BENEDITO, por onde andará?
No Hospital de Aeronáutica, estava eu à espera do oficial-dentista me chamar para a inspeção odontológica. Ali encontravam-se alguns soldados que também aguardavam inspeção de saúde. Um deles me ficou marcado: o Benedito. Ao perceber aquele jovem esmirradinho, raquítico, principiou-se a fazer troça da minha musculatura de Tarzan-depois-da-gripe. Ironicamente, dizia a seus colegas que eu provavelmente estava ali para ingressar como soldado da PA. Ora! A Polícia da Aeronáutica é uma tropa de elite conhecida pela truculência em que somente são admitidos soldados de um metro e oitenta de altura para cima. Eu, obviamente, estava longe desses critérios, por isso servi de alvo cômico para o gracioso Benedito.
Tem nada não.
Poucos dias antes, numa noite, antes da esperada viagem, seu Manoel Valentim, cumprindo vocação paterna de grande conselheiro, me chama a um canto:
“Antonio, um conselho: seja sempre honesto”.

No momento, não entendi bem a necessidade daquelas palavras, somente mais tarde fui associá-las à minha condição de servidor público, de que em breve estaria investido. Seu Duca, o sábio, por muitas vezes certamente ouvira notícias de funcionário público improbo, enriquecimentos ilícitos – desfalques, como era a palavra técnica mais comum para definir o crime de dilapidação do dinheiro público, hoje mais conhecida como corrupção financeira. Jamais me esqueci daquelas sábias palavras de meu pai, que há tempos deixou este plano terreno.
E, nessa primeira terça-feira de agosto daquele longínquo 1977, eu estava ali cedinho. O sargento encarregado do Posto CAN Belém fazia a chamada e pesava as bagagens. “Você vai estudar pra caramba”, alertou-me ele, quando informado de que meu destino final era a Escola de Especialistas, com a autoridade de quem passou dois longos anos lá. Recordo também que se encontrava presente um oficial, creio que primeiro-tenente especialista (se não especialista, engenheiro), a julgar pelas insígnias que só mais tarde identificaria. Referindo-se ao militar, tio Antônio Rodrigues falou assim: “São esses homens que mandam no Brasil”.
Nunca esqueci também dessas palavras embora não soubesse o que realmente significavam.

Despedi-me dos dois com as bênçãos chorosas de minha mãe e embarquei naquele avião rumo a um futuro desconhecido. Fosse o que Deus quisesse.Despedi-me dos dois com as bênçãos chorosas de minha mãe e embarquei naquele avião rumo a um futuro desconhecido. Fosse o que Deus quisesse.
Uma vez autorizado o embarque, acomodei-me num dos primeiros assentos do Bandeirante equipado com poltronas e cuja tripulação – dois oficiais-aviadores e um sargento-mecânico – trajava o uniforme que depois eu conheceria como o sétimo no Regulamento dos Uniformes da Aeronáutica (RUMAER), e não o macacão de voo, cujo uso hoje é usual em aeronaves militares. Já taxiando, gentilmente o sargento-mecânico de voo cuidava dos passageiros orientando sobre cinto de segurança e outros pormenores técnicos; chegando a mim, pediu-me que me levantasse e ocupasse o último lugar, que, na configuração original da aeronave, era um assento sanitário adaptável para assento normal, e que só era utilizado se o avião estivesse com lotação máxima. Era o caso. Obediente, fui para a traseira da aeronave, atei o cinto, e, como se fosse um passageiro veterano, quedei-me tranquilo e despreocupado enquanto o barulhento aparelho levantava voo rumo ao Rio de Janeiro. Sem que me desse conta (como sempre), o episódio representava na prática uma das duas palavras que passaria a ouvir com frequência desde o primeiro dia de Escola até o meu último da carreira, trinta anos depois: hierarquia e disciplina. Havia, portanto, uma hierarquia a ser observada até mesmo na ocupação dos assentos de um avião militar. No caso, havia, portanto, uma hierarquia a ser observada até mesmo na ocupação dos assentos de um avião. No caso específico, o sargento com os olhos treinados avaliando os passageiros, todos civis, para, a partir disso, os classificar numa escala hierárquica que ele, plenamente emquadrado ao sistema militar, reconheceria até mesmo na maneira de andar de cada um. A mim, candidato a aluno de uma escola formadora de sargentos, simples e humilde em tudo, naturalmente caberia o derradeiro lugar, fato que nenhum desgosto a mim causou.

Faço essas observações com o olhar maduro de hoje e percebo que, sem que tenham consciência, as pessoas naturalmente costumam fazer avaliações em toda e qualquer situação, não importando o ambiente onde se encontrem. Não vai aqui, porém, nenhuma menção de censura ao sargento-mecânico, porquanto o militar apenas, sem maiores reflexões, reproduzia o que a sociedade, mormente a classe militar, diz ser o correto fazer – é assim que a banda toca; é assim que caminha a humanidade. Diferente tratamento, porém, creio eu, poderia receberia caso este que escreve estas memórias fosse homem de outra aparência, elevada estatura, bem trajado.
É a vida; é a sociedade.
L.s.N.S.J.C.!
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