Por Montiez Rodrigues
“E TU, levanta teu pau sobre as águas e, no meio do mar, se abrirá um caminho na vossa frente; todo o povo passará por ali como se fosse em terra seca”. Exodus, 14:16

Ontem aconteceu algo incrível: como Moisés atravessando o Mar Vermelho sem molhar seus pés, atravessei o Corredor da Morte, cheio de homens e mulheres bebendo, e não tomei uma cerveja sequer. Como os pés enxutos de Moisés e de seu séquito, não molhei o bico. Acho que estou à beira da santidade. Estou pronto, Papa Francisco! Canonizai este outro Chico, o Francisco Demontiez de Janduís, e elevai-o ao Panteão dos Chicos: Chico de Assis, Chico Xavier, Chico de Paula, Chico do Canindé e outros chicos que mesmo sem serem santos, já estão lá com os seus cantos, como Chico Buarque, Chico César e Chico de Aristides de Serra Talhada.
Aquietai-vos, cachaceiros do Beco da Morte! Este ataque de sobriedade foi porque minha conta no Box do Herminho já atingiu níveis de insanidade. Jamais concordarei com a sentença de José Augusto Moita, fabiano de boa cepa, de que “beber é bom demais, mas não beber é melhor ainda”, porque se trata de um contra-senso que transcende minha lógica etílica. Como Nelson Gonçalves, Nelson Cavaquinho e Nelson Alfaiate, violonista daqui de Jacobina, que morreram boêmios, eu nasci boêmio e vou morrer boêmio e, quem me quiser, terá que ser assim.
Quando minha mãe, aos treze anos, jovem como a Santíssima Virgem Maria, grávida de mim na mesma idade que a Santa Imaculada foi fecundada pela pomba do Divino Espírito Santo, bebia num bar com meu pai, outro bêbado profeta aproximou-se deslumbrado e exclamou: “Bendito seja o vosso ventre! Esta criança que antes de nascer já está bebendo, beberá pela vida inteira!” Há 69 anos a profecia vem se cumprindo religiosamente. Quiçá atinja um século!
Há pessoas que sonham ter seus ossos num mausoléu para serem admirados pela posteridade; outros desejam apenas ser enterrados ou cremados e suas cinzas espalhadas ao vento. Múmias atravessaram séculos intactas nas pirâmides do Egito, o coração de Dom Pedro l zarpou de Portugal, atravessou o Atlântico embebido em álcool e formol, duzentos anos depois que o moleque se fez imperador, declarando a dependência do Brasil à Inglaterra. Já eu gostaria que meu corpo fosse conservado em álcool como aquela serpente da garrafa de Pitú(contrariando a acentuação gráfica brasileira, a cachaça tem acento!) do bar de Seu Lili, que, embebida com álcool de Vitória de Santo Antão, parece embevecida, sorrindo com as presas.
Kkk… Tão hilário quanto genial!
L.s.N.S.J.C.!
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