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ESSE ERA o brigadeiro democrata [Eduardo Gomes], que mais tarde, a partir de 1964, enviaria cartas às empresas comerciais e industriais do Rio de Janeiro recomendando a não contratação de oficiais, sargentos e cabos expulsos das fileiras da FAB [por questões político-ideológicas]. Quanto a Lacerda, estava bem de amigos. Todos eles oficiais da Aeronáutica, grandes patriotas e democratas exemplares (politizados, como definia Nero Moura), que não hesitavam em largar a família em casa (ou mesmo no hospital), para o trabalho de segurança do candidato [Carlos Lacerda] em seus compromissos de campanha política, em rodízio. Serviço completo: pegavam-no e o deixavam em casa. Um deles não se importava em sair de casa à noite enquanto filho e esposa pernoitavam no hospital. É possível que se sentissem o próprio super-homem, em sua incansável luta pela salvação da humanidade. Nessa noite, o amigo e herói de plantão era o major-aviador Rubens Vaz que, desarmado, enfrentaria a unha um homem que se aproximava do automóvel em atitude suspeita. Ao interpelá-lo, entra em luta corporal, levando um tiro no coração. Lacerda, que [teoricamente] seria o alvo, saía ileso, nem um arranhão. Morre não ele, mas sim o amigo que saíra em sua defesa com fidelidade canina. Esse amigo era um major da FAB, jovem ainda, que deixava viúva nova e quatro crianças pequenas na orfandade. Com que cara Lacerda ia se apresentar ao público, aos colegas e à família do amigo? Seria, no mínimo, acusado de covarde, ao ter fugido e deixado o major, seu amigo fiel, largado à própria sorte. Por acréscimo, o episódio não teria surtido os efeitos de um atentado político.

Na volta do hospital, o cearense Armando Falcão traz Lacerda num táxi. O jornalista desabafa numa crise de consciência:

Acho que vou enlouquecer! Foi uma enorme desgraça o que acaba de acontecer. Penso que fui eu quem matou o Vaz. Dei uns tiros a esmo, já sem óculos, e tenho a impressão de que ele estava na minha frente. Que horror! Que tragédia, meu Deus!

A geopolítica global agora, nessa época, divide o planeta em dois blocos antagônicos: capitalistas e comunistas. Os Estados Unidos da América do Norte agora estão sob a gestão do general Dwight D. Eisenhower, que para a América Latina agora tem política mais invasiva. A CIA fora criada em 1947, ainda na gestão de Henry S. Truman, exatamente para isso: interferir nos governos não alinhados aos interesses estadunidenses usando seu gigantesco poderio bélico para tais fins, e naturalmente também o poder econômico. Internamente em países latino-americanos, o Império usava a mesma fórmula mágica: cooptar e fortalecer as oposições. É a política do porrete: “Fale com suavidade, mas tenha um grande porrete nas mãos”. A força econômica simbolizando a “suavidade”; o exército, o porrete.

Alcino, o pistoleiro desastrado (imagem aperfeiçoada digitalmente)

Como exaustivamente já vimos, Vargas, o ex-ditador, vinha tomando diversas decisões contrárias aos interesses ianques: criou a Petrobras, deu os primeiros passos para a nascente Eletrobras, recusou-se a mandar tropas para a Guerra da Coreia, promoveu ações internas de política social. Se tais ações eram demagógicas, como acusava a feroz oposição por meio da imprensa, disso não se importava o povo. Para a população, que houvesse mais demagogos como Vargas e João Goulart e menos democratas como Eurico Gaspar Dutra e Eduardo Gomes. [Vargas] Se ao povo beneficiava, ao Tio Sam contrariava, e assim, esse país, por meio de seus prepostos aqui, viria ao curso de poucos anos a desestabilizá-lo em definitivo. Ao mesmo tempo, Vargas abria as portas do palácio e convidava seus inimigos a banquetearem-se. Alimentava um monstro que estava prestes a devorá-lo. A CIA, que depois viria a derrubar governos de várias outras nações latino-americanas, debutava em três delas: Guatemala, Brasil e Argentina, em 1953, 1954 e 1955, respectivamente. Na Guatemala, derrubou o governo de Jacobo Arbenz Guzmán, cujo erro foi tentar fazer a reforma agrária entrando em conflito com a United Fruit Company, que monopolizava terras cultiváveis guatemaltecas, explorando mão de obra barata. No Brasil de 1954, encontra-se em pleno curso violenta campanha com o fim de apear Vargas do poder, cujas ações governamentais de cunho nacionalista conflitavam com os interesses predatórios do País do Norte. Noutras palavras, Vargas já servira aos interesses norte-americanos [quando ditador]; agora, na década de 1950, não fazia mais o jogo dos ianques, por isso seria descartado dando lugar a governos dóceis, fantoches, como foi o de Dutra e seriam os de Café Filho e dos militares a partir de abril de 1964.

Lacerda é amparado por soldados da FAB, não por coincidência negros (imagem aperfeiçoada digitalmente)
Aqui, Lacerda está amparado por oficiais da Marinha do Brasil, brancos. Em ambas as fotos, retratos da sociedade brasileira em que negros habitavam o andar de baixo. Revelam também a intimidade entre o jornalista e as Forças Armadas (imagem aperfeiçoada digitalmente)

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(VALENTIM, Antonio. O País dos Militares e dos Bacharéis. Rio de Janeiro: 2021, p. 204.

O JORNALISTA Mário Magalhães escreveu sobre a vida de Carlos Lacerda. Promete ele revelar, nesse livro, muitos fatos e hipóteses sobre o caso da Rua Tonelero, ao que parece revelando aquela que eu considero a maior farsa do século XX. Estou aqui ansioso pela leitura da obra. Sabe-se que o guarda-costas-de-dia era o major Gustavo Borges, mais tarde secretário de segurança de Carlos Lacerda, mas, de última hora, foi ele escalado para uma viagem para Goiás. Como teria que acordar cedo, pediu que Rubens Vaz o substituísse na missão de acompanhar Lacerda. Borges era do tipo resolvido, e, sempre armado, certamente abateria Alcino, o pistoleiro, que fora um dos homens de Tenório Cavalcante (da UDN e poderoso homem da Baixada Fluminense). Isso (Alcino morto) não interessava de forma alguma a Eduardo Gomes, UDN e militares, pois, mediante tortura o pistoleiro os levaria a Gregório, que (acreditavam), por sua vez, os levaria a Vargas, como de fato ocorreu. Com tal escopo, arranjaram então um jovem major, pacato, pai de quatro filhos, cuja morte resultaria em enorme comoção popular. Daí para a “República do Galeão”, só um pulo.

L.s.N.S.J.C.!

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