NUMA NOITE de maio de 1944, Inge surpreendeu o marido mirando-se no espelho numa clara demonstração de vaidade. Luthero Sarmanho Vargas estava recém-designado pelo presidente da República, nada menos que seu próprio pai, como tenente-médico da FAB. Agora, ele via com satisfação refletida no vidro a própria imagem fardada. “Quanta vaidade!” – concluía a germânica ao perceber a expressão facial do marido. Era uma época em que os homens deste país – em sua maioria – ambicionavam a farda e sonho de toda mulher brasileira era o de casar-se com um oficial das forças armadas. Não era o caso da alemã.
Não era bem essa imagem vaidosa que Ingeborg Ten Haeff guardava do marido, um jovem médico, quando o conheceu em Berlim em 1939. Ao contrário, Luthero, um jovem médico, era um homem simples e desprendido. O gesto de vaidade e a farda impecável significavam que Luthero estava prestes a partir para a Guerra, deixando-a no Brasil: afastamento e fim do casamento, relacionamento que vinha capengando desde 1942, quando estiveram nos Estados Unidos da América.
Por que deixaram de se amar?

Ou nunca se amaram, na verdade?
Ela via ali diante do espelho um homem bem diferente daquele rapaz diferenciado que, quase cinco antes, a encantara em Berlin. De simples e desprendido, agora estava ali inerte diante de um espelho, admirando a própria imagem. Luthero era jovem ainda, bem-apessoado, médico ortopedista bem-conceituado, filho do presidente, e agora um oficial da Aeronáutica, embora temporário. Por ironia, seu marido estava partindo para a Guerra para combater a Alemanha, uma guerra da qual, ela própria, cidadã alemã, inconscientemente se distanciara para casar-se com um sul-americano. Na época, ano em que a Guerra iniciara, ninguém em sã consciência poderia prever as proporções que o conflito tomaria.
(Continua…)
Esta e outras histórias eu contarei no livro “Yes, nós somos brasileiros!”, em breve no prelo.
L.s.N.S.J.C.!
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