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UM DOS MAIORES perrengues por que passei na Escola de Especialistas foi naquele primeiro semestre de 1979, o derradeiro como aluno da Escola. Tínhamos regressado de férias, quando fui escalado para aluno-de-dia ao Corpo de Alunos, conhecido entre nós pela sigla “CA”. Foram 24 horas intermináveis.

Passagem de serviço no Corpo de Alunos da EEAR (imagem aperfeiçoada digitalmente)

Em tese, os serviços de aluno-de-dia e os outros serviços de escala visavam a preparar os alunos para às batalhas que futuramente infrentariam já como sargentos na unidade militar para onde fossem designados. Creio eu que a maioria de nós, jovens e adolescentes, a bem da verade, não tinha a menor ideia sobre isso – a preparação. Tirar serviço de escala apenas significava para todos um grande peso, um dia perdido no quartel. Eu, 18 anos apenas, era ignorante de uma série de coisas, sem a menor ideia do que viria mais tarde. Ia ao sabor dos ventos, uma espécie de Forrest Gump a testemunhar – e até mesmo participar – involuntariamente no futuro uma série de situações inusitadas, embaraçosas, que no momento não tinha como avaliar seus significados.

Resumindo: um ingênuo, um inocente – e Deus protege os inocentes.

Depois das férias de final de ano, estávamos de volta para os últimos meses que antecediam a nossa formatura, que ocorreria em 13 de julho. Fui o segundo a ser escalado para a missão, talvez a mais dura para alguém tão inexperiente como eu, com nenhuma experiência militar. Sim, porque os três semestres de então eu os levei no piloto automático, na base de “eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”, como mais tarde diriam os Engenheiros do Hawwai. Mais atenção a tudo faria falta naquela situação.

O aluno Valentim em momento de lazer

Como aluno-de-dia, a minha figura ficaria em evidência perante mais de duas mil almas, ação para a qual aquele guri não estava em absoluto preparado. Meus eventuais acertos figurariam como meros detalhes, reles obrigação, detalhes imperceptíveis, ao passo que os erros seriam observados e criticados, sendo isso motivo de piadas no círculo da alunada.

Minha caveira ficaria em evidência. Estava supernervoso. Ainda estava fresco na memória de todos nós o triste episódio em que alguns de nossos colegas foram desligados do curso por uso de entorpecentes, doze no total, incluindo alunos de outras turmas. Da Tarjeta Branca lembro nome e rosto juvenil de alguns: Santana, Nunes, Pedroso, Jander… Seria a temível naba voadora, tão anunciada desde a primeira série, que finalmente teria aparecido? Pensava eu na inocência da minha juventude.

Lembrava-me também daquele episódio do tenente Lucas com o Valdomiro. Estávamos na segunda série, primeira metade de 1978. Naquela tarde em que todo o CA estava em forma no grande pátio aguardando o ordinário marche para as instruções vespertinas, o oficial de permanência, tenente Lucas, notou uma fração de tropa se mexendo, e mexer-se contrariava as ordens severas de imobilidade quando em formação militar. Valdomiro, além de se mexer em forma, conversava com o colega ao lado, o Orival. O oficial aproximou-se do grupamento e gritou ordens de imobilidade diretamente ao transgressor, dizendo palavras como: “Vocé é muito novinho, aluno. Você ainda está fedendo a almoxarifado.”. Valdomiro respondeu, ainda que em voz baixa, algo como: “…e fique sabendo que eu não tenho medo desses ‘negocinhos’ que estão aí em cima do seu ombro.”. Possesso com o atrevimento do aluno, Lucas chamou o sargento-de-dia, que anotou o número do nosso colega. No entanto, ao contrário do que nós imaginávamos, Valdomiro não levou punição severa; tudo não passou de um “impedimento”, que hoje se chama “licenciamento suspenso” de um final de semana. Na apuração, foi considerado que ele apenas reagiu para defender sua dignidade. Valdomiro era um goiano peitudo, como declarou anos depois o Adão Paulino, seu conterrâneo. O colega foi digno do nosso respeito, pois teve a coragem que nenhum de nós em sã consciência teria: enfrentar um superior hierárquico, mais ainda sendo um oficial, que naquela época estava acima do bem e do mal, com o poder de recolher um praça ao xadrez.

Não foi então dessa vez que a temível naba voadora fez pouso no pátio do Corpo de Alunos.

Todavia, num outro final de semana, os mais espertos – talvez – estranharam aquela sexta-feira sem a obrigatória formatura geral para a revista de uniforme, leitura de boletim e pronunciamento do comando do CA, rotina de toda semana, com a presença do capitão Pinheiro, o Sapão, que era uma espécie de subcomandante do CA. Havia algo de podre no ar, mas é claro que nem estranhei; nem a mínima suspeita do que viria a seguir.

Pois bem.

Naquela fatídica sexta-feira alguns oficiais do CA, auxiliados por sargentos, montaram uma espécie de “operação de guerra”, exagerando um pouquinho no uso dessa expressão. Nessa rara oportunidade, eles tiveram a oportunidade de aplicar métodos coercitivos ensinados pelos manuais acadêmicos. Em sua visão doutrinária, eles queriam separar o joio do trigo e apanhar o fato entre os pombos, pegando os lobos em pele de cordeiro e, finalmente, identificar os alunos que usavam substâncias entorpecentes. Esse fato marcante é lembrado até hoje. O comando – da Escola e do CA – já sabiam disso, faltando apenas a oportunidade para apanhar os transgressores antes que se formassem. Comentou-se à larga que o serviço de informações – terminologia da época para a arapongagem, que hoje conhemos por ‘inteligência’ – vinha trabalhando por meses para fechar o cerco. A questão do consumo de bebida destilada era, portanto, coisa secundária; um meio e não o fim. A repressão aos beberrões era, por conseguinte, um pretexto, que era afastar os usuários de drogas. Essa sexta-feira era o dia D. Pôs-se durante a semana uma espécie de operação tolerância zero: alunos que saíam de forma para beber água, mexida em forma e outras transgressões insignificantes estavam sendo reprimidas. Fato mais grave foi a reunião de alunos no fundo do prédio, com consumo de bebida alcóolica, o que acarretou a suspensão do licenciamento no fim de semana para todos os alunos da Escola.

Contudo, como em toda regra existem exceções, este o foi caso de um colega que tinha horário marcado no dentista quem sabe a liberação desse aluno não tenha sido de caso pensado? Ele foi incumbido de comprar na cidade aguardente, e para isso havia sido organizada uma ‘vaquinha’. Outros ficaram encarregados de pegar no rancho petiscos para os tira-gosto.

Comandante da EEAr homenageia Vicente Mateus, presidente do Sport Club Corinthians Paulista, cuja equipe sub-20 havia jogado contra a seleção da Escola.

Sob sigilo, os alunos-de-dia às esquadrilhas já estavam alertados para que, em caso de movimentos suspeitos que viessem a ocorrer depois das 22 horas, acionassem o oficial de permanência ao CA – naquele tempo, havia um oficial de serviço exclusivamente para o Corpo de Alunos. Naquelas fatídicas 24 horas, o oficial de serviço era o tenente Magalhães, exatamente o oficial mais doutrinador e exigente da Tarjeta Branca, turma 171. É possível que isso não tenha sido coincidência, e esse tenente já estivesse alertado e, portanto, preparado para as ações daquela noite. Ele surgiu no início da madrugada e supreendeu cerca de oito alunos remanescentes, que se prolongaram na reunião festiva com o consumo de bebida alcoólica. Esse era já um número reduzido em relação a meia hora atrás, pois havia um número superior a duas dezenas de alunos no local, a sacada ao fundo do alojamento. Eles, vencidos pela ação da manguaça e pelo sono, em sua maioria foram se retirando aos poucos para a cama, de forma que os oito mais fortes permaneceram no local, que naquele instante foram surpreendidos pela voz de prisão da parte de Magalhães. Não demorou muito e vários sargentos, acompanhados de um oficial, incumbiam-se de lacrar vários armários.

Humilhados, a maioria de trajes sumários ou sem camisa, os colegas receberam ordens de marchar de mãos na cabeça até o comando do CA. Lá chegando, foram levados a uma sala contígua à do comandante do Corpo de Alunos, onde receberam ordem para se despirem totalmente. Em seguida foram forçados a se deitarem no chão, decúbito ventral, pernas e braços abertos. Uma posição pra lá de constrangedora.

Decorrido algum tempo, chega ao local o comandante da Tarjeta Branca, o tenente Arrais: “O que houve com vocês, meus meninos?!Ponham já a cueca.”. Daquela forma (apenas de cueca), foram em seguida, um a um, chamados a uma outra sala para o interrogatório. Não é difícil supor que, diante de tamanha pressão psicológica, todos deduraram os outros colegas, que também estavam no local a tomar cachaça, e não, obviamente só isso, alguns fumando um cigarrinho. A cada pouco, um ou mais alunos chegavam conduzidos ao local, sempre em passo ordinário e com as mãos na cabeça. Ao final do processo, finalmente foram identificados os alunos visados, que foram sumariamente licenciados a bem da disciplina da Força Aérea, de forma irrecorrível.

Festa dos aniversariantes, evento que ocorria bimensalmente (fotografia aperfeiçoada digitalmente)

O episódio da expulsão sumária de nossos colegas foi para nós, os mais bobinhos, uma grande surpresa, e a maioria se quedou atônita, chocada com o caso. Fato marcante e traumático. Eu, ingênuo e leal até mesmo aos que não mereciam, cheguei a escrever uma carta de consolação a um deles, vizinho próximo de armário, mas não obtive resposta. Dizem mesmo que até algumas cartas eram abertas pelo serviço de informações, e, na verdade, isso era fato corriqueiro, coisa que só descobri muito mais tarde.

Não há como crucificar nenhum dos envolvidos por dedurarem colegas. Qualquer um de nós, garotos de dezoito ou dezenove anos, diante de tamanha tortura psicológica, abriria o bico. Aqueles caras eram profissionais da área e sabiam fazer bem o trabalho a que se propunham. No meio disso, muito fácil a participação inicial de algum dedo-duro, alguém sempre disposto a colaborar com o sistema.

Voltando às minhas agruras do dia.

Fui ao quadro de avisos da esquadrilha e dei um suspiro de alívio por não ler o meu nome para aluno-de-dia. Fui escalado para aluno-auxiliar, ficando à sombra com bem menos exposição. Legal. Era muito bom para ser verdade, porque no dia seguinte mudaram a escala. Talvez tivesse o dedo do aluneante visando proteger algum amigo, mas disseram-me que o sargenteante mudou a escala por causa de uma gripe repentina do aluno originalmente escalado. Por isso, não tive tempo para treinar; e nem mesmo essa ideia teria me ocorrido.

Foi um grande fiasco. As pernas tremiam mais que vara verde; o rosto transpirava mais que tampa de chaleira. Na passagem de serviço, gaguejei as palavras. Depois da apresentação, que fiz às duras penas, as bandeiras (a Nacional e a dos países amigos) foram hasteadas em completa dissonância com a marcha-batida executada pelo corneteiro-de-dia. No desfile, fiz a continência ao major e o olhar-à-direita fora do tempo. Pelo conjunto da obra, levei uma sonora bronca do major Pacheco, o que me deixou mais nervoso ainda.

Findas aquelas 24 longas horas, senti alívio quando passei o serviço ao companheiro do dia seguinte. Fui poupado de piadas, colegas foram compreensivos e agiram com bondade.

Sargento Rodrigues, conhecido entre nós por “Caveirinha”

Exceção desse caso, tudo correria dentro da normalidade; o semestre fluía com rapidez. Não tardou, veio o jantar dos cem dias, tradição naquela época.

Logo terminaria para nós o período letivo, tempo em que nos dedicávamos aos preparativos para a formatura tão aguardada. Eu não tive pendências em disciplina alguma nesse último semestre. Era só esperar 13 de julho e correr para o abraço, como se diz hoje. A Diretoria de Pessoal já preparava as vagas para onde iríamos depois de formados; as unidades militares nos aguardavam e a Escola já se preparava para receber a próxima tarjeta branca, que nos sucederia.

Vieram os treinamentos, e sobre eles ficaram marcantes em minha memória a voz de comando do sargento Júnior quando dizia: “Alinha, moçada, é doze a doze. Doze a doze. Alinha, moçada!”. A turma o imitava exagerando a sua voz, fazendo-a mais aguda do que realmente era. Paralelamente ocorriam todas as providências relativas à formatura em si, o que incluía provar as peças de uniforme do enxoval, posar para as fotografias da revista de formatura, devolver chave do armário alugado do Romão Fardas e identificar-se visando as novas carteiras de identidade de terceiro-sargento. Enquanto isso, os sargenteantes já corriam as 462 fichas de desimpedimento pelas numerosas seções e departamentos da Escola, pegando os respectivos “nada deve”.

Os dias se aceleravam e já vislumbrávamos o da formatura. A Turma 171 decolaria, enfim, aproando em direção aos hangares, às oficinas, aos destacamentos, às torres de controle, aos almoxarifados, às companhias de infantaria e de polícia, aos canteiros de obras, aos hospitais, às seções administrativas e aos gabinetes, cada um desempenhando a sua especialidade nos diferentes rincões deste Brasil. Estava próxima a hora de transpormos o portão daquele grande jardim.

Chegamos ao dia 12 de julho, uma quinta-feira véspera do grande e esperado dia. Havia ordens severas para se coibirem os excessos que geralmente aconteciam nessas datas, a julgar pela experiência do sucedido nas turmas antecedentes. Era comum em uma ou outra esquadrilha, quando não em todas, rolar muita birita, cachaça, manguaça, marapuama, pinga, aguardente… ?Eram ingredientes necessários à inevitável festa da última noite como aluno da Escola de Especialistas de Aeronáutica, noite esta em que já estava assinado o boletim de promoção e o formando já portava sua cobiçada identidade de cor castanha – sem riscos de desligamento. O comandante escalava sargentos para vigiar a turma nas diversas esquadrilhas. O sargento Tarcísio, vulgo sargento “Buceta”, foi um dos incumbidos de manter a ordem. Tarcísio tinha esse apelido pela frequência com que pronunciava ese nome, apelido da genitália feminina. Ora, quem eventualmente estiver lendo estas linhas, mas que não tenha vivido aquela experiência de turma, provavelmente iria compreender que o sargento Tarcísio estava ali com a intenção férrea de não permitir o derrame de cachaça. É certo que ele tinha ordens expressas nesse sentido. É bem possível – podemos imaginar – que tenha dito a seu comandante “Sim, senhor. Deixe comigo” quando, ainda na cabeça o episódio ocorrido seis meses antes, lhe dava severas ordens nesse sentido.

Sargento Tarcísio

Pois sim. Dias antes, prevenido, Tarcísio havia previamente sondado os alunos cearenses – e o Ceará, como é sabido, é um Estado famoso por fabricar cachaças de boa qualidade -, e deles encomendado a famosa água-que-passarinho-não-bebe. O produto chegaria ao CA por meio dos parentes que viriam para a formatura dos filhos, sobrinhos ou irmãos. Não sei como burlaram a revista de armário que antecedeu à noite, mas, já experimentados, quando se quer algo sempre se dá um jeito.

Abertos os armários, ainda lembro da cara de surpresa que me fez o tenente Arrais, ao notar que o meu era forrado de fotos de mulheres peladas, que eu recortara da Status, publicação da qual eu era colecionador. “Você tem uma bela coleção, aluno!”, disse ele – que devia ser evangélico – movendo a cabeça com ar reprovador. Alguns colegas levaram garrafas de Chave de Ouro, Ypioca e de outras marcas afamadas, das quais Tarcísio era profundo conhecedor e, principalmente, consumidor. Naquela noite houve muito formando que não dormiu ou porque participava da festa ou mesmo pela total ausência do sagrado direito do silêncio noturno, que foi ignorado. Na esquadrilha vizinha ainda notei quando um grupo, já sob os efeitos da mardita, erguia Tarcísio sacudindo-o para cima, alegres e embriagados. Eles gritavam em uníssono: “Bucetinha, Bucetinha, …!”. Era uma cena à semelhança de um técnico de futebol erguido por seus jogadores de futebol a festejarem a conquista de um campeonato. Até aquele momento, eu não tinha plena ciência do quanto Tarcísio era popular e querido. Noutra esquadrilha, quando Tarcísio ali chegou e também degustou da purinha em companhia dos formandos, vários deles, os mais mamados, fizeram um trenzinho no vão central do alojamento e cantaram em coro a seguinte cantiga, sucesso naquele ano:

Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel
Tá com medo tabaréu?
É de linha, de carretel

Você encosta, ela estica
Tira a mão da minha pipa
Que eu quero soltar

Chega pra lá
Assim não dá

Minha pipa é voadora
Minha pipa tá no ar

Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar
Ah, ah, ah, minha pipa tá no ar

[…]

Na solenidade de formatura, a derradeira daquele período, houve colegas que heroicamente conseguiram permanecer em pé até que o corneteiro tocasse o fora-de-forma, seguido da tão esperada, tradicional e emocionante revoada de quepes.

Parte da turma de Escreventes em fotografia para a revista de formatura (imagem aperfeiçoada digitalmente)

Naquela sexta-feira nebulosa (climaticamente falando, claro) e tão esperada por todos nós, recebi finalmente as insígnias tão cobiçadas e pelas quais tanto sofri naqueles dois longos anos.

Dos detalhes da solenidade em si pouco ou nada recordo, vez que minha mente se concentrava no filme daqueles dois anos. Nunca mais aquele boi-ralado, nunca mais Caveirinha, nunca mais o Sapão nem o Cavalo-de-aço, nunca mais banho frio, nunca mais aquela ralação toda, mosquetão, nunca mais ter apenas quinze minutos para tudo. Adeus RPM, adeus apostilas… A mente viajava pelas intermináveis e exaustivas instruções de ordem unida, ocasião em que penávamos nas mãos do Caveirinha ou do sargento Mathias,… os abomináveis serviços de plantão ou de sentinela no sofrido horário de duas às quatro, as apreensões acerca das instruções teóricas e seus exames, os traumas sofridos quando do desligamento de colegas que nos eram caros, independente das razões que os levaram a se separar de nós. Em cada uma de nossas mentes rolava um filme particular. Nós conseguimos. Ainda que aos trancos e barrancos, eu consegui!

Nosso desfile de formatura, o derradeiro da Escola

Um misto de êxtase pela vitória e de alívio por ter superado todas as exigências diárias ao longo de dois anos. Por outro lado, a multiplicar-se-ia a responsabilidade – era o que eles nos diziam nas sessões de doutrinamento; eu, porém, me negava a pensar nisso. Deixaria para depois preocupar-me com as responsabilidades de sargento, graduação a que agora chegava; cada perrengue no seu dia – era o meu lema. Na unidade em que eu viria a ser classificado – esse era o termo técnico correto – haveria outras obrigações e cobranças, a respeito das quais somente lá é que pensaria em delas tomar conhecimento e solucioná-las. Nenhum de nós seria conduzido, ao menos na forma como acontecia na Escola em que para tudo havia um comandamento de alguém, mas sim exigidos em iniciativas, devendo pôr em prática o que fora ensinado naqueles dois anos. Sobre esta nova fase, a vida viria a me exigir muito também muito durante mais 28 anos, e aquele jovem de dezoito anos não tinha a mínima ideia do que lhe esperava. Muito mais que a vida profissional, a particular, para a qual não existe escola, sim me exigiria muito mais ainda, levando-me a experimentar situações inimagináveis para aquele garoto. Estávamos prontos?

Ordinário, marche!!!

Mas, e a Escola?

De tudo que me ficou indelevelmente estampado na mente, diria que o companheirismo foi o sentimento mais marcante em todos nós, salvo exceções. Este escriba nunca mais veria a todos reunidos novamente. Foram para mim ocasiões de festa quando, mais tarde, em Anápolis, Boa Vista, Manaus, Belém, Brasília, Belo Horizonte, Belém novamente e finalmente Curitiba, eventualmente vim a rever um ou outro companheiro, um outrora jovem como eu daquela Guaratinguetá daquele final de década. Nós todos jamais estaríamos reunidos novamente. Nunca mais!

A Escola e aquela turma jamais saíram da minha mente e de meus olhos, parafraseando Lenon e MacCartney. Alguns dos colegas hoje estão na eternidade; outros, por razões e circunstâncias diversas, desvincularam-se da Força, aproando para outros horizontes, mais amplos, largos e distintos. Muitos deles hoje são profissionais liberais ou empresários bem-sucedidos; há ainda os que seguiram a carreira de servidores do Estado, mais bem e com justiça remuneradas; outros são professores e até poetas. A maioria deles, porém, permaneceu na Força – assim como este escriba – como especialistas ou em outros quadros -, trilhando os caminhos que a Força preconizava, e que foram a razão principal daqueles dois longos anos.

Capa da revista da nossa formatura

Sim, foi bela essa convivência de distintas raças, credos, origens, sotaques, cultura… Sim, é verdade que uma parcela minoritária, porém, significativa da turma era constituída de colegas mais experientes. Olímpio, Mário Luiz, Roque, Hudson, Valério, Carlito… estavam alguns degraus acima na escada da vida em relação a garotos imberbes como o Hydalgo, o Nobre, o W. Alvarez, o Lacerda, o Montanholi, o Valentim… Apesar das diferenças etárias, éramos todos do jardim da infância. Digo assim porque, tal qual na primeira infância, não tínhamos ideia do que a vida nos reservaria para os anos subsequentes àquela grande aventura, que foram aqueles dois anos inesquecíveis. Tempos de luta, tempos bons, tempos que não voltariam jamais, mas que permanecem registrados em nossos coração e mente.

Sim, a Escola!

Charlene, minha filha, na véspera de sua formatura, 2003 (imagem aperfeiçoada digitalmente)

Voltei ao Berço dos Especialistas, como agora chamada a Escola, em duas ocasiões: a primeira em 1997, quando, para um curso de instrutor, permaneci lá por um mês e na segunda vez por ocasião da formatura de uma das minhas filhas, a Charlene, novembro de 2003. Nessa derradeira oportunidade, em especial, a emoção tomou conta do meu espírito. Desta vez me fiz acompanhar de minha mãe e do meu saudoso pai, como uma espécie de paga pela ausência deles em 13 de julho de 1979. Na véspera daquela formatura, cheguei à Escola, vesti o nono uniforme e dei três voltas na pista olímpica do campo de futebol. A cada volta rememorava trechos daqueles dois anos inesquecíveis, voltando mentalmente a ser novamente aquele garoto ingênuo e simplório, as imagens tão nítidas como numa obra de cinema.

Na manhã seguinte, após a formatura de Charlene, entrei no mesmo alojamento que naquele remoto biênio ocupei, e que funcionou como a nona esquadrilha daquele 1979. Novamente, tudo foi como um filme na minha cabeça ao rever em espírito e coração toda a turma de 24 anos antes. A revista de pernoite, o alvoroço do toque de alvorada, o tempo exíguo para tudo, o corre-corre diário, a estranha calmaria e silêncio dos finais de semana, o rancho, os olhares furtivos às filhas das lavadeiras, tudo aquilo voltou a minha mente, … lágrimas inevitáveis.

Com meu pai, minha mãe e a Charlene novamente em Guaratinguetá, 2003 (imagem aperfeiçoada digitalmente)

Aluno novamente!

Em 2001, fui matriculado noutra Escola, o CIAAR, em Belo Horizonte, onde passei três meses na condição de aluno, uma condição similar à vivida na Escola, agora dessa feita com muito mais responsabilidades e vivência. Nessa oportunidade, como desafio pessoal, propus-me a ser o primeiro colocado do curso, o Zero Um, uma condição invejável, diferentemente da época de Guará quando enfrentei sérias dificuldades no campo intelectual. Uma fraqueza que Deus permite a todos. E de fato fui o Zero Um, cabendo-me a honra de receber a espada das mãos do ministro da Defesa. Partiria agora para uma outra etapa da minha carreira, não mais como praça, mas a uma nova missão com maiores e e mais complicados desafios, que, graças ao bom Deus, foram vencidos um a um.

No CIAAR, Belo Horizonte, com meu pai descerrando a placa da turma, 2001

* * *

E ESTA foi a história daquele menino que um dia, sem ter adequada preparação escolar, fez um concurso, foi aprovado no limite, e que foi buscado lá nas brenhas do Pará pelo amigo Francisco (Que Deus o tenha em Sua glória!); a história de um garoto que viajou de avião pela primeira vez sentado num assento, que era na verdade um vaso sanitário adaptado lá no fundo daquele Bandeirante; um rapaz que quase ficou perdido no Rio de Janeiro, não fosse por obra daquele bilheteiro da Viação Sampaio, uma daquelas pessoas boas que o bom Deus coloca em nosso caminho; a história daquele jovem que chegou a Guaratinguetá em pleno inverno trajando uma camisa fina de verão, e que ultrapassou os portões da Escola num ônibus da “Pássaro Marrom”; que lutou e quase foi reprovado. Esta é a história daquele aluno que marchou, correu, suou, superou adversidades.

E vejam que a sequência toda foi quase que por acaso. Eu, na verdade, tudo o que me propus a fazer era simplesmente me encaixar nas situações postas à minha frente, me esforçando por vencê-las uma a uma. Mas, porque Deus quis e o acaso me protegeu quando estava distraído, aquele garoto ingênuo e simplório venceu.

Obrigado, Deus! Obrigado, minha mãezinha, pelas orações. Obrigado, meu pai, pelos conselhos. Gratidão, querida Escola, pois eu jamais te esquecerei, ó meu grande jardim da infância!

L.s.N.S.J.C.!

6 respostas

  1. Avatar de Antóvila Lima
    Antóvila Lima

    Que bela história, amigo Valentim. E quanto real, verdadeira, fidedigna. Aos astros e além… “Ad Astra et Ultra”!

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    1. Avatar de Antonio Valentim
      Antonio Valentim

      Grato, amigo Antóvila. De fato é real, verdadeira e fidedigna.

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  2. Avatar de carlosafonso53@gmail.com
    carlosafonso53@gmail.com

    Belíssima recordação.

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    1. Avatar de Antonio Valentim
      Antonio Valentim

      Obrigado, amigo e irmão Braga.

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  3. Avatar de FRANCISCO DEMONTIEZ SOARES RODRIGUES
    FRANCISCO DEMONTIEZ SOARES RODRIGUES

    Belo relato. Caveirinha, Tarcísio fizeram parte de meu tempo na EEAer. Sempre trazia uma cachacinha pernambucana pra eles na volta da férias. Não nunca tirei Aluno de Dia porque criei uma bolsa de escala de serviço e sempre consegui me livrar dela, mas fiquei muito nervoso quando fui escalado para substituir o locutor oficial, o Barros, na leitura do Boletim no pátio do Corpo de Alunos.Adorei seu relato, Valentim! Terei bastante subsídio para completar minhas memórias. Valeu!

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    1. Avatar de Antonio Valentim
      Antonio Valentim

      Obrigado, amigo Demontiez, que não é da minha turma, porém aprendi a admirar mesmo à distância. Você é o mesmo caso do Moita, a quem visitamos (eu e família) em Fortaleza. Ele, ainda que nunca tivesse me visto pessoalmente, visitou-me antes aqui no interior do Paraná. Assuntos em comum, origem comum, ideologias em comum…

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