SE ESTAS páginas constituíssem uma obra de ficção, como um dos geniais romances policiais de Agatha Christie, eu as finalizaria revelando uma solução surpreendente. A notável escritora britânica formula em suas obras uma pergunta, e que também normalmente faz a polícia investigativa: Quem lucraria com a morte da vítima? A resposta é simples, ao mesmo tempo surpreendente:
Ismênia e Moacir.
Ora! Ismênia era o grande amor do capitão-médico Moacir de Almeida, que frequentava a sua casa desde que ela era apenas uma criança. À medida que os anos se passaram e a adolescência chegou, aflorou nela, aos olhos de Moacir, uma extraordinária beleza. Sendo ela virgem de toda a conversação masculina – nas palavras do Bruxo do Cosme Velho –, não foi tarefa difícil para o médico conquistá-la. Logo estavam de casamento marcado. Tudo parecia dar certo para ele. A família de Ismênia, entretanto, não aprovava o relacionamento de uma jovenzinha, a seus olhos ainda uma criança, com um senhor de idade – talvez quarenta e tantos anos, o que na década de 1950 caracterizava Moacir como um homem velho. Assim sendo, Ismênia casou-se com Afrânio, cuja agência onde trabalhava ficava ali mesmo em Botafogo, onde morava a jovem.

Resignado e experiente, Moacir ia dando tempo ao tempo. Alimentava o resquício de esperança que ele não deixava morrer. De repente percebeu que o casamento de Ismênia com Afrânio fazia água. Dentro de pouco tempo, os dois estariam desquitados e o caminho finalmente livre para Moacir de Almeida, após longa espera. Mas agora havia um problema: Afrânio não assinava a autorização.

Afrânio era ocupado com mulheres solteiras, viúvas, desquitadas e casadas. Além disso, circulavam boatos de que estava envolvido com uma mulher da alta sociedade e que os irmãos desta não via a relação com bons olhos, pois além da diferença social, sentiam-se humilhados. Ao mesmo tempo, existia na vida do bancário uma jovem de dezoito anos, sua namorada recente. O casamento prometido à jovem não foi adiante pelo fato de ele ser desquitado. Mas ela, cansada de esperar e para não contrariar a família, agora se enamorava de um jovem militar. Essa era a chave mais à mão. Mediante leves ameaças de parte a parte, ia-se fomentando intriga entre o jovem aviador e o bancário experiente.
[…]
(VALENTIM, Antonio. O Misterioso Crime do Sacopã. Maringá, 2022, pág. 194)
L.s.N.S.J.C.!
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