ESSE RIO É MINHA RUA é um livro de autoria de Ruy Antônio Barata, título homônimo ao célebre poema da lavra de seu pai, o talentoso poeta paraense Ruy Guilherme Paranatinga Barata, musicalizado por seu irmão Paulo André Barata, ambos saudosos paraenses, que souberam retratar como ninguém a alma do povo amazônico.

Como definir o conteúdo desse livro?
Mais difícil que definir essa obra maravilhosa, tão abrangente e multifacetada, é começar este texto sobre o livro do dr. Ruy Barata, médico paraense nascido em Óbidos e radicado há mais de cinco décadas em São Paulo, capital.
Isso me lembra um velho texto publicado no Correio da Manhã, jornal carioca já extinto. Resumidamente, é um recado de um jovem universitário protestando:
“Meus camaradinhas, não entendi bulufas desse negócio de fazerem o papai aqui apresentar o professor Antenor Nascentes, um cara tão crânio e cheio de mumunhas, que é manjado até na Europa…”.
Eu sempre o aproveito, repassando a meus alunos quando trabalho a variação linguística da língua portuguesa.
Mas, voltando ao tema proposto, o dr. Ruy Antônio, um cara tão crânio e pleno de histórias vividas, um grande brasileiro que interagiu até mesmo com JK, que construiu a Belém-Brasília e libertou o Pará do isolamento; Ruy, um sujeito de família tradicional tão abnegado que teve arriscada a sua carreira, e tudo isso pela razão de não se acomodar com a condição confortável que o avô Alarico, o pai Ruy e a mãe Norma, proporcionvam à família. Bem por isso, tendo vivido a política paraense e nacional desde os anos de 1940, 50, chegando na juventude aos anos mais turbulentos e sombios da história deste país, é que – assim eu vejo – Ruy Antônio Barata, um jovem que respirava intelectualidade, portanto sabedor das injustiças deste mundo, não poderia se ocultar.

Portanto, comentar a obra homônima à de seu pai representa para mim algo acima da minha pequeníssima capacidade de escrevinhador anônimo. Ao mesmo tempo, uma honra a que eu, depois de ter devorado com imenso interesse, as 438 páginas do livro, não poderia me furtar.

Ruy Antônio, de memória privilegiada e fartíssima pesquisa, narra no livro a história dos Barata, família que ainda no século XIX migrou do Ceará para o Baixo Amazonas, fixando-se em Óbidos, à margem esquerda do maior rio do mundo. Seria esse o rio que é a rua do Ruy pai, a que se referiu na letra do icônico carimbó? Ao mesmo tempo, o autor aponta os cenários políticos e sociológicos da conturbada política paraense, desde a época do truculento interventor Magalhães Barata, que, apesar do mesmo sobrenome, foi ideologicamente combatido pela família de Ruy, comandada pelo vovô Alarico Barata. Não só isso: o autor, à medida que, crescendo, compreendia as intensas discussões políticas promovidas pelo pai, nos traz o panorama das tricas e futricas nacionais de Getúlio, o ditador, passando pelo insosso Dutra, o incendiário Lacerda, JK, o imprevisível Jânio Quadros, Jango e os militares, que, ora de um lado, ora de outro, mas ao final se revelando entreguistas, enfim, maus brasileiros – resumindo. Sim, porque tudo culminou com os anos de chumbo, as perseguições paranóicas, o arbítrio desmedido, a censura insensata, a violência sem precedentes, o terror das torturas dos frios cárceres e dos soturnos porões, os corpos “desaparecidos”, além de 6.500 militares na rua da amargura por terem ousado discordar de tudo.
O mesmo Ruy, acadêmico de Medicina, que se engajou nos movimentos estudantis, por isso perseguido pela ditadura, é o mesmo Ruy Antônio que nos apresenta fatos curiosos como a visita da poeta norte-americana Elizabeth Bishop, mundialmente reconhecida, a mesma que foi amante da arquiteta Carlota Macedo Soares. Sim, o Ruy pai, no velho casarão da Generalíssimo Deodoro com a Domingos Marreiros, era procurado por todos: políticos, amigos, artistas e também por boêmios.
Mais tarde, o jovem Ruy Antônio veria na prática o que conhecia em teoria dos livros da biblioteca da casa. São dele estas palavras:
“…descobri que poderia ser um bom médico. Mas não sem o sofrimento pessoal causado pelo padecimento dos pacientes pobres, miseráveis e andrajosos, deitados em camas de ferro, cobertos por lençóis puídos e remendados, vitimados pelos mais diversos tipos de doenças: a maioria decorrente de subnutrição e parasitoses.”
Que poderia eu dizer dos Ruy, tanto o pai quanto o filho? Grandes brasileiros, resumindo nestes dois vocábulos que, para mim, significam o maior elogio que se pode dizer a um de nós, filhos desta nação tão sofrida, palavras que gosto de repeti.
E o que teria influenciado o garoto, o adolescente e o jovem Ruy Antônio a vir a ser o doutor Ruy Antônio Barata, médico especialista em nefrologia? Eu arriscaria dizer que o acidente de carro sofrido por Paulo André, quando este ficou por longo tempo imobilizado, contribuiu com algumas gotas da vocação. Ao mesmo tempo a convivência com Cristina, que fora sua namorada, filha de um brigadeiro-médico, tenha reforçado a convicção da medicina no coração de Ruy. No entanto, além das leituras, conversas e os movimentos estudantis, a visão do quão desigual é este país, sobretudo, consolidou nele a missão abraçada.
O livro de Ruy Antônio nos traz também pitadas de casos interessantes, curiosos, picantes. Um deles é este:
“…a atriz Lana Turner […] se enfeitiçara por um tenente aviador brasileiro na base de Val-de-Cans. Depois de dançarem e se esbaldarem a noite inteira no cassino dos oficiais, Lana literalmente levou nosso tenente direito para o coito no capinzal próximo.”
A turma de Medicina, da qual fez parte Ruy Antônio, abrigou meia dúzia de sargentos da Aeronáutica. Eles pretendiam tirar proveito da legislação que permitia a sargentos formados em Medicina ascenderem ao oficialato, com possibilidade de acesso ao posto de tenente-coronel. Um deles era o sargento Expedito Souza. Como panorama dos costumes da Belém de outrora, o autor narra o centro da cidade, local frequentado por boêmios de todos os naipes, entre os quais o próprio autor. Vejamos este trecho:
“Nas pensões da Margot, René, Gláucia, Moza e Denise, o clima fervia em ambientes movidos à birita, ao som dos boleros e gemidos que brotavam dos quartos de piso de madeira rangente. Gláucia, dona de uma das concorridas pensões, era amante do nosso colega Expedito Souza, um dos sargentos da Aeronáutica – e que nos facilitava a entrada…”
Falando em Aeronáutica, por seu livro fiquei sabendo que um comandante da Base Aérea de Belém se rebelou contra o sistema que se impunha pelas armas, perseguindo João Goulart, este também um grande brasileiro. Da mesma Aeronáutica, o coronel-aviador Jocelyn Brasil, deposto, reformado e expulso da FAB, era visita frequente à família Barata. Um dia de fevereiro de 1966, em passeio pelo Rio de Janeiro, Ruy Antônio vislumbrou nos calçadões de Copacabana uma figura que lhe parecia familiar:
“Aproximei-me e dei de cara com o velho Jocelyn Brasil com capa de super-homem, portando uma placa que dizia: ‘Ex-coronel da Aeronáutica cassado, ganhando a vida.’ Era o protesto aberto de um militar que havia sido expulso das Forças Armadas.”
Um livro multifacetado, enfim. Ruy Antônio Barata, o garoto, o jovem namorador, o jovem idealista, o boêmio, o médico iniciante dotado de humanidade, um dia esteve a um “sim” de se tornar um guerrilheiro. Um dia no final da década de 1960, o velho casarão da Generalíssimo recebeu um senhor de chapéu de feltro, calça marrom e camisa branca. Pretendia recrutar voluntários para colunas que se formariam ao longo da rodovia Belém-Brasília, em movimentos permanentes, além de outras bases sediadas entre o Pará e o Maranhão.
“Viemos te oferecer um curso de especialização em medicina para o qual, caso aceites, deves viajar nos próximos dias para a Argélia.”
Mais tarde, Ruy Antônio soube que o homem misterioso era o próprio Carlos Marighela. E até hoje, o velho Ruy busca uma resposta para isso.
O dr. Ruy termina o livro assim:
“Sobrevivi em São Paulo como médico e cidadão, sempre envolvido nas lutas por um mundo melhor e mas justo, acalentando utopias, colhendo vitórias e derrotas, apesar de duas detenções pelo DOI-CODI, seguindo na mesma trilha dos versos do poeta indiano que transcrevi no final do discurso de formatura: ‘Se não nos queimamos, quem nas trevas fará a claridade.’. Embora nunca tenha voltado a morar em Belém, acho que agora, na mesma rua que virou meu rio, voltei.”
É isto, amigos. Esse Rio é Minha Rua é um livro que todo brasileiro, todo paraense, deveria ler, porque se esse rio é nossa rua, não somos de igarapé e quem montou na cobra grande não se escancha em puraquê. Tal foi o caso dos Ruy, tanto o pai quanto o filho.
L.s.N.S.J.C.!
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