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Alberto Levy

Durante a graduação em Letras, tive um professor daqueles que transformavam qualquer assunto em uma aula memorável. Era um senhor muito experiente, extremamente culto, bem-humorado e que dominava a arte de prender a atenção da turma.

Certa vez, alguns meninos lá do fundão conversavam discretamente sobre mulheres e amantes. Aquele velhinho tinha uma audição de fazer inveja a muitos jovens. Bastou ouvir a palavra “amante” para pedir licença para apresentar uma das teorias mais fantasiosas que já ouvi na vida.

Ele começou:

“Vocês sabem o que significa amante? Gente, como diz a própria acepção da palavra, amante é aquela que ama.”

E, a partir daí, passou a defender sua tese com uma convicção impressionante.

Direto ao ponto, tentou justificar o relacionamento extraconjugal por meio da política internacional americana. Segundo ele, durante a era Clinton, o mundo vivia em relativa paz. Os Estados Unidos não estavam em guerra com ninguém e o motivo seria simples: Bill Clinton estava de boa com a sua amante.

Na visão do professor, um homem bem resolvido emocionalmente não quer guerra com ninguém.

Na época, estávamos na era Bush, marcada pela chamada Guerra ao Terror, iniciada após os ataques às Torres Gêmeas. O mundo temia que os conflitos extrapolassem o Oriente Médio e chegassem ao Ocidente.

E toda aquela onda de ataques foi atribuída, pelo eloquente professor, ao fato de que, aparentemente, George W. Bush não tinha amante.

O homem era tão convincente que, em certo momento, já estava quase me fazendo concordar com ele. Eu pensava: “Olha, talvez não seja uma má ideia.”

De volta à aula normal, ele passou a cobrar as atividades pendentes e a passar um exercício atrás do outro. Foi quando uma aluna resolveu mandar um diretaço:

“Professor, o senhor tem amante? Se não tem, vou já arrumar uma pro senhor, porque o senhor não para de nos bombardear com tarefas.”

A sala veio abaixo.

Naquele momento, a confiança e a firmeza do velho sábio balançaram. Ele, que já era branco, ficou vermelho e depois pálido. Os olhos, por trás daqueles óculos de fundo de garrafa, pareciam que iam saltar do rosto.

O que aconteceu ali me trouxe uma lição. Não importa o quanto o professor tenha autoridade e domínio da palavra, sempre vai aparecer um aluno capaz de tirá-lo do chão com um comentário sagaz ou uma pergunta espinhosa.

Muito boa!

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