Página voltada às coisas da nossa Língua

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DURANTE minha carreira na Força Aérea Brasileira conquistei algumas vitórias.

Não, não vou aqui aludi a comendas, elogios e tapinhas nas costas. As vitórias maiúsculas que conquistei foram as realizações gratificantes quando, no exercício de minhas funções, conseguia ajudar as pessoas que procuravam nossos serviços e assessoramento.

Nutria um carinho todo especial pelos meus auxiliares, desde a época em que era sargento novinho.

Graduei-me sargento especialista contando apenas dezoito anos de idade. Logo que cheguei a Anápolis, minha primeira unidade militar, tive a honra de assumir o cargo de chefe da Seção de Alterações (chefe era apenas uma denominação pomposa, na realidade). Lá de imediato, ficaram sob minha supervisão um cabo, quatro S1 e outros tantos S2. Era um matraquear infernal de máquinas de escrever.

Desde então foi assim, com raras exceções. Tratava a todos com urbanidade e em troca obtinha deles a colaboração espontânea e efetiva, com o respeito que não era o imposto pelas frias letras do regulamento disciplinar. O respeito era recíproco, como deve ser na vida.

Ainda como sargento, como prêmio pelos bons serviços prestados, contemplava a quem fizesse por merecer com alguns dias a mais nas férias, conforme na minha escala de valores considerasse merecedor de recompensa. Fazia isso por minha conta sem que os chefes e comandante interferissem ou mesmo disso tivessem conhecimento. Se alguma coisa desse errado, era a minha cabeça que estava ali sob a espada.

Mantive a mesma conduta como oficial na Base Aérea de Belém. Infelizmente, pelo pouco tempo em que lá passei e por outras razões alheias à minha vontade, não pude proceder da mesma forma no 2º Cindacta.

Estava nessa tarde, já passados alguns minutos do final do expediente, quando chegou à bandeja de entrada uma mensagem-rádio. Estava como interino no cargo de comandante do EP (Recursos Humanos, na terminologia atual) e o documento referia-se ao cabo Marcelo Souto. O Cb Souto havia sido meu auxiliar no período em que passei no Controle Interno da OM, comportando-se como elemento trabalhador, daqueles que raramente saia depois da formatura de verificação de presença da tarde, qualidade que sempre apreciei, além de, é óbvio, outras virtudes apresentadas no período em que esteve sob a minha chefia.

Peguei o telefone e, falando em tom grave, o chamei imediatamente à sala que eu ocupava então. Veio correndo, preocupado com o que seria. Não pedi que se sentasse na cadeira. “Leia esse documento, cabo”, tratei-o com formalidade militar. Souto leu o radiograma e então, quase às lágrimas, não conseguia falar de tanto embaraço emocional.

Tratava o documento de sua convocação para o curso de sargento especialista. A mensagem dava-lhe as instruções e o prazo para se apresentar na Escola de Especialistas de Aeronáutica, em Guaratinguetá, São Paulo.

E eis que o tempo passa e, a meu exemplo, também ele encaminha uma de suas filhas para a mesma carreira.

Passaram-se os dias, meses e anos, e o atual sargento Souto não esqueceu do episódio. E isso para mim é deveras gratificante. Parabéns, segundo-sargento Marcelo Souto do Amaral.

Vitória! Vitórias!!

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